Tuesday, March 02, 2004

Novo Blog, New Blog, Novus Blogus (?)...

Enquanto o meu novo post não vem, criei um novo blog. Para os que gostam de línguas, creio ser interessante. O único problema é que esta todo em inglês. :-) O nome? LinguaMundi.

Wednesday, February 25, 2004

Discurso Sem Verbos


Sei que ainda não é um post grego, mas enquanto o próximo não vem, dêem uma olhada nisso:

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Depois do discurso em sua posse no Instituto Histórico da Bahia, sem o uso da letra a, o filólogo baiano Antonio Sá volta à tribuna três anos mais tarde, desta vez para fazer um discurso sem usar um verbo sequer.
Eis o discurso de 1918 na íntegra, em sua forma ortográfica original:


"VARIEDADE LITERÁRIA"

Orgulhosa de si mesma, rica em vocabulos, mais do que rica, poderosa, a lingua portugueza!

Por que ?

Vasta, immensuravel, capaz de qualquer manejo; ora prompta à subfracção de uma letra principal, como o A, ora docil e obediente à falta de uma particula importante do estylo, como o Verbo.

Entretanto, sempre bella e sempre magestosa. Quer na prosa, como nos ensinamentos de Castilho e Herculano, quer no verso dôce ou candente de Guerra Junqueiro ou Castro Alves.

Que de mysterios na sua origem e que de belezas na sua formação !

Que de encantos na sua existencia e quanto de importante e transcendente nas suas ligações com as outras linguas do universo !

Que de carinho e doçura em muitas de suas expressões, e que de propriedade, de força, de symbolismo, em um numero sem conta de seus termos !

Dahi , a sua grandeza, a sua importancia, o seu valor, até mesmo no conhecimento parcial ou incompleto das suas profundezas, das suas fontes, dos seus segredos occultos quaes outras gemmas de subido valor ou inexhauriveis e inestimaveis filões de ouro de lei. Por isso, ao trabalhador paciente e infatigavel no descobrimento dos seus mysterios, a recompensa, a paga, o lucro certo em thesouros inexgotaveis.

E bem assim o prazer, a gloria do conhecimento e trato com esse idioma commum a dois povos, irmãos em raça, irmãos em origem, quer no passado repleto de veneras e honrarias, quer no presente todo cheio de esperanças em um futuro ainda melhor e mais explendoroso.

Para quem o convivio intimo e discerimonio com essa soberana tão altiva de sua linhagem mais que nobre, tão imponente nos seus foros de fidalga cortezã ?

Para bem poucos, em relação ao numero extraordinário de seus vassallos.

A uns, como Camões, Frei Luis de Souza, João de Deus, Vieira, Latino Coelho, Filinto, Bernardes, Eça de Queiroz e tantos outros, por indole, inclinação, intuição, gosto, prazer, necessidade, a exploração minuciosa, methodica e circumstanciada da formosura de seus arcanos, do não apparente de seus opulentos escrinios. A outros, por desejo imitativo, tendencia ao estudo, ou como eu, por divertimento oupassatempo. Todos, porem, grandes e pequenos, philologos ou não, sob o poderio dessa magestade irradiante, util e proveitosa, immarcessivel e bemfazeja como a luz do sol.

Della mil proveitos, della mil ensinamentos. Sem ella, para nós, povos latinos, a ignorancia de deslumbrantes riquezas, no conchego, na intimidade dos grandes mestres, desde os seculos remotos até aos nossos dias. Ali, Luiz Camões, poeta, guerreiro e mendigo, eterno consultor das analyses, super constructor da phrase tersa, alti eloquente cantor dos feitos gloriosos das gentes de Portugal, nos immortaes "Luziadas".

E, porque não Bocage, tão grande no seu estylo limpo e nitido, quão livre soberano, altivo e independente, verdadeiro e consiso na linguagem ?

No manuseio dos seus livros, a verdade do seu quilate, a expressão sincera do estylista como classico, e do classico como escriptor.

Depois, Alexandre Herculano, nas fontes abundantes de suas lições na nossa lingua; já nas maximas philosophicas de um profundo ensino ao povo, já entre o mais, no transumpto fiel de uma paixão humana no peito de um sacerdote, fóra da vida real, mas, debaixo do grilhão dos olhos de Hermengarda, imagem do sacrifício do orgulho e preconceito de uma raça. Batalhador audaz e destemido, corajoso e invencivel, tanto de homem quanto da féra, em "Eurico" o amor inextinguivel, e neste livro, em lanço por lanço, o manancial infindavel de uma literatura sadia e confortavel, pura e bôa, agradável e escorreita.

E o grande Camillo Castello Branco ? Em suas obras, o amor e as convenções sociaes sempre em lucta sem treguas e sem quartel. Em sua penna, o gladio vingador, a punição constante ao orgulho, sem visos de razão. Em seus assumptos, um grande bem às almas, um enorme prazer aos corações, uma nenia à paixão terrena e infeliz, uma benção, em summa, à pureza e à sublimidade dos mais serios e mais caros sentimentos affectivos.

Ao mesmo passo, o estudo profundo da nossa lingua, o ensino a todos nós, por meio das suas bellezas, o encantamento de um estylo todo delle, e, por isso mesmo, ao alcance de poucos e longe, da imitação de outrem.

Nos nossos dias, ainda lá no velho Portugal, "sob a nudez crua da verdade o manto diaphano da phantazia" de Eça de Queiroz. o imenso e incomparavel escriptor contemporaneo; commentador exacto dos usos e costumes da gente de sua terra, ao par de uma linguagem tao incisiva quão eloquente, tão mordaz quão penetrante, tão expressiva quão forte, e tão em harmonia com os sentimentos desses de lá e tambem de nós outros, seus irmãos por tantos laços. Nos seus livros, fieis espelhos do seu tempo, o caracter de um povo superior e o espirito brilhante de um literato immortal. Nas suas obras, a lição, a critica sensata e ferina, a postergação ao vício, o aniquilamento do futil, do hypocryta, na folhagem de falsa competencia ou na veste da honestidade bastarda, à luz diamantina do verdadeiro e impassivel julgamento dos homens, como elle, superiores no criterio e formidaveis na razão.

E, sobre todos, vivos ou mortos, poetas ou prosadores, de mim para commigo, Guerra Junqueiro, o rei da poesia, o sabio emfim, quer na doçura commovente dos versos de "Fiel", do causticante "O Melro", na cadência suave da "Musa em ferias", na delicadeza captivante dos "Simples", nas duras verdades da "Morte de D. João", na pungitiva commoção da "A Lágrima", na contrição das orações à Luz, ao Pão e ao Vinho , e tudo mais desse autor da "Patria" e tantos outros trabalhos de psychologia em rimas dc ferro em ou sopro ameno da brisa ciciante.

Entre nós, tanto na prosa quanto no verso, ora, um poeta sublime como Gonçalves Dias, colosso, na expressão de Vieira de Castro; ora, um condoreiro incomparável, como Castro Alves, o cantor dos escravos eterno nas "Espumas Flutuante" , na "Cachoeira de Paulo Affonso", na "Ode ao 2 de Julho", ou no "Navio Negreiro", em tudo finalmente, derivante de um cerebro ainda em flôr e tão cedo cadáver, mas, sempre o mesmo grandioso lyrico da phalange heróica da ultima geração. Ora, um Alvares de Azevedo, como o outro, flor em pó aos verdes annos, celebre nas "Noites da Taverna" ou na expressão em face à morte: "Que fatalidade, meu Pae!".

Excesso de talento contra o excesso da vida, resultado de seiva em dernazia em mente pouco sã, ausência de equilibrio natural decorrente do mcthodo ou meio de vida necessarios à conservação da existencia de um homem não commum, em Alvares de Azevedo, uma das mais lidimas esperanças da literatura nacional.

Ora, um Tobias Bareto, poeta e doutor, o mestre do direito, o publicista, o humilde musico de philarmonica e sua pequena terra, e, mais tarde, o visionario em relação aos tempos actuaes do direito internacional, nos faucess hiantes do mais moderno canhão. Ora, um Laurindo Rebello, embora triste de mais; um Casimiro de Abreu; um Gonzaga de "Marilia" um Fagundes Varella; um Raymundo Correa, no vôo brando das "Pombas" ou no conceito philosophico do "Mal Secreto"; um Emilio de Menezes, de settas sempre de riste; um Machado de Assis, o grande critico; e, entre os vivos, os Alberto de Oliveira; Olavo Bilac, o principe e o sonhador; o Arthur de Salles o nosso pontifice; Borges dos Reis, lidario das gemmas brasileiras, traductor incomparavel da "Musa Franceza"; e, em summa, Roberto Correa, tão simples no trato e tão rico de inspiração, como o amiguinho das creanças. Ora, entre os tribunos dos tempos de nós mais proximos, Victorino Pereira, Cesar Zama, Pedro Americano, Fausto Cardoso, a victima da politica por amor à sua terra tão pequena em territorio e tão grande em talentos, e tão feliz com seus filhos de valor.

Na epoca presente, em primeiro llogar Ruy Barbosa, o sol deste Brasil, defensor tanto na paz quanto na guerra dos direitos da humanidad soffredora. Advogado dos grandes e dos humildes, dos poderosos e dos fracos. Delegado do nosso pensamento; embaixador do nosso sentimentalismo. Traductor impeccavel das nossas aspirações e dos nossos desejos, no concerto dos homens mais eminentes do mundo. Para elle, de nós todos, tudo de melhor nas homenagens, senão, para todos nós o planoo inferior da nossa natural e justa veneração. Ao mesmo passo que, em logar de mór destaque, as Americas, a Europa, o universo, emfim, de braços em attitude amiga e cabeça curvas deante desse vulto tão pequeno no physico tão grande quanto um Deus. Para a hora terrivel de provações innominaveis da velha e culta Europa, em guerra de exterminio e de conquista, só o verbo inflamável e divino desse nosso Cicero, só a palavra evangelica do maior dos oradores do Brasil. Só a agua benta das suas conferencias magistraes sobre o direito das gentes na fervura indomavel das paixões em ebulição, no fogo acceso das ambições em jogo. Só o conforto de uma palavra como a desse apostolo do bem, desse missionario da fé, para estimulo dos combaten tes, para balsamo às feridas, para allivio aos martyres e retemperamento da fibra dos defensores impeterritos do sacrosanto pendão das leis da humanidade. A Ruy Barbosa, fiel da balança desta Republica, filho amado da Bahia, orgulho do Brasil, os meus anhelos bonançosos em pról de suas romagens do bem, da justiça, do trabalho e do amor aos fracos sob o poder dos mais fortes. A nós, o jubilo de uma raça inteira, o enthusiasmo de todos os patricios, olhos fixos no reflexo explendoroso desse astro de maior grandeza, no azulino céo da patria brasileira. De mim, pequenos demais, relativamente a sua immensidade o culto fervoroso ao seu talento, a veneração extrema à sua pessôa, o prazer de suas victorias retumbantes, uma homenagem simples como esta: seu nome, sua lembrança, num trabalho modesto qual o meu. Como philologo, conhecedor profundo da nossa lingua, orador fluente e imaginoso, dominador de massas populares, jornalista invencivel, jurista excelso e inegualavel, de mim, a citação de sua figura estupenda, a referencia à sua inconfundivel individualidade, para honra deste meu devaneio literario, producto exclusivo da minha paciencia e do meu grande esforço.

Agora, um hymno aos pés do throno do preclaro mestre, Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro. Quem mais senhor das imponencias da lingua portugueza que esse sabio preceptor de tantas gerações ? Quem mais conhecedor das subtilezas do nosso bello idioma que esse glorioso arauto de tanto espirito brilhante, de tantos homens eminentes, sempre repeitadores da prata de sua cabeça, da felicidade do seu lar, da sua vida operosa, dos seus esforços ingentes no ensino da mocidade do Brasil? Ninguém mais do que elle. Em cada dia da sua labuta educativa em beneficio dos estudiosos, mais um fio branco como linho, nos seus nevados cabellos, mais um sulco na sua face austera, mais uma benção do ceo sobre o seu casal, todo amor, todo carinho, todo venturas sem par. Immortal nos "Serões Grammaticaes", bem como na celebre discussão do "Codigo Civil"; sublime nas suas conferencias, qual a ultima "Educação e Moral", electrisante, commovedora, eloquente, profunda e classica, em todas as suas obras, a rigidez de uma fibra tensa para o ensino, para a convicção por meio dos bons exemplos e dos melhores principios de sã philosophia. Sem offensas a outrem, sem receio dos milindres alheios, para o mestre excelso da nossa lingua, quer como o mais perfeito e mais completo investigadordos seus veios de ouro; quer como o maior dirigente de milheiros de estudantes, os meus emboras mais effusivos, os meus applausos mais sinceros. Ao tempo em que, de mim, de todos os seus dilectos alumnos, seus amigos, um voto fervoroso pela conservação da sua vida, tão necessária à familia, quão util e proveitosa à comunhão social. No seu passado, um labaro (le esperanças na victoria da instrucção. Nas suas obras, um pendão em frente ao povo, como um incentivo na peleja pela conquista de uma carta de abc. Num pedestal de ouro, tão luzente quão valioso, em relação aos sessenta annos de vida trabalhosa, a figura patriarchal e solemne desse idolo da mocidaee, desse homem não commum, o Dr Ernesto Carneiro Ribeiro. E muito abaixo da peanha, na planicie das coisas vulgares, e, por isso mesmo, pequeninas, a plebe dos manuseadores dos bons livros. Mais abaixo ainda, na confusão do pó dos poucos conhecimentos, milhares de neophitos como eu. E para mim, seu nome refulgente, seu alto valimento, com fêcho desta minha variedade literária.

Hosannas, mestre !

Hosannas, grande educador !


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Retirado de Discurso Sem Verbos

Tuesday, October 14, 2003

O Começo do Interlúdio

.:A Preparação:.
Demorou, mas enfim aqui estou, com o segundo post do Vida Grega.

O tempo em silêncio deve-se a razões diversas. Primeiro, porque não tenho o computador à mão para escrever na hora que eu bem entender. Segudo, porque os computadores existentes por aqui não possuem (logicamente) suporte para o português. O resultado é que não posso nem: 1) acentuar as palavras; nem 2) ver páginas ou documentos corretamente - porque em vez de letras acentuadas, tudo o que se vê são caracteres gregos.

Mas vamos começar do começo. Voltemos ao dia 06 de Outubro de 2003. Eu tinha uma passagem de ida para a Grécia marcada para o dia 08 à zero hora e meia (00:30). Seria uma quarta, o que significa que eu teria que sair de casa na terça, por volta das 10 da noite, para poder chegar no aeroporto em tempo de pegar o avião. O problema é que quando você pretende ir ao exterior com algum intento que não seja o de turismo (trabalho, estudo, etc.), há que se conseguir um visto, e esse visto se consegue no consulado do país que se deseja ir. No meu caso, o da Grécia, que fica no Rio.

Pois bem, a coisa funciona da seguinte forma: como você tem que viajar e residir legalmente em outro país, existe a velha burocracia. O consulado manda informações suas ao país em que você deseja se estabelecer e espera a resposta do governo desse país, dizendo se você tem autorização para residir lá. Em outras palavras, é o famoso visto, ou, em inglês, visa. Era a única coisa que faltava.

A questão era que já era dia 06, e eu iria viajar dia 07 (na verdade, dia 08, mas eu sairia de casa no dia 07, já que o vôo era meia-noite). Depois de falar com o cônsul da Grécia pelo telefone, descobri que meu visto ainda estava no Rio e que a autorização da Grécia não chegara. E, claro, não podia perder a passagem (é, a companhia, por incrível que pareça, não aceitava mudança de data nem reembolsava o money. Como havia sido comprada através de algum tipo de promoção, não aceitavam mudanças. Em outras palavras, eu iria perder quase 3.000 reais). O resultado é que o cônsul propôs que eu fosse ao Rio no mesmo dia e pegasse o passaporte com o visto que ele daria (isso ilegalmente, porque autorizaria minha entrada sem receber confirmação do governo grego, o que, devido às circunstâncias, era a única saída). E é isso mesmo. Às vésperas da viagem, tive que comprar uma passagem pro Rio. Mais dinheiro, infelizmente, já que a passagem (ida e volta) custou quase 800 mangos. [suspiro]

Mas bem... fui ao Rio dia 06 e, claro, não pude pegar o passaporte no mesmo dia, porque os consulados só estão abertos de 10am às 3pm. E tinha conseguido um vôo que chegava às 6 da tarde. Fiquei lá até o outro dia, fui no Consulado, peguei o passaporte e fui pro aeroporto, pra voltar pra Salvador. Cheguei em SSA, ainda tive que arrumar as malas (já que não tinha contado com um dia a menos para colocar as coisas em ordem) e fui pro aeroporto de novo, dessa vez para ir à Grécia.

Chegando lá, estavam presentes, além da família (tio, tia, pai, mãe, irmã, papagaio, cachorro, etc.), Metal, Hyor e Júnior (guitarra, ex-Pandora, ex-Dark Riders), esperando por mim que, pra variar, chegava meio atrasado - mas também, tinha sido um dia meio cansativo, há que se admitir. Ficamos jogando papo fora até a hora que fui chamado pra embarcar. Aí então o usual: o choro, a euforia na hora de perder o filho pro mundo, aquela coisa toda.

.:A Viagem:.
A viagem durou oito horas até Lisboa. Do meu lado, havia se sentado uma brasileira que estava indo estudar moda na Suíça. Jogando conversa fora, descobri que os 23 graus outonais de Athenas se transformavam em cruéis 5 graus suíços, e também que a frieza do povo neutro contrastava drasticamente com a agitação e a vivacidade dos helênicos.

As oito horas, felizmente, não se demoraram tanto a passar, já que foi um vôo que aconteceu de noite. Todo mundo dormiu e ficou por isso mesmo. Chegando em Lisboa, tive que achar alguma coisa pra prender o cabelo, e vivi mais descobertas:
1) "Xuxa" (aquela, de cabelo) em Portugal se chama "elástico";
2) "Bico de pato" é "mola" (?!)
3) "Piranha" (aquele negócio pra prender cabelo também) pode ser "piranha" ou... "frufru".


Duas horas depois, estava num vôo para Roma, deixando o sotaque lisboeta para trás. Desembarcando na cidade do antigo maior império do planeta, dei-me conta de que era a minha segunda vez naquele país. E, pela segunda vez, me impressionei com a beleza do lugar. Vou dizer, que paisinho bonito! Muito verde, as estradas muito bem conservadas, o povo muito simpático, o ar muito limpo, e a temperatura... ah, que tempo bom! Gostoso de ficar na cama, debaixo das cobertas vendo filme naquele friozinho bom. Frio que não é frio, e sim aqueles 20 graus que te fazem sentir confortável e que não te deixam ficar suando o dia inteiro.

Seguindo as instruções expressas de Hyor, decidi aproveitar o momento e viver a noitada de Roma. Depois de ligar pros contatos na cidade, o resultado foi uma farra passada entre 5 clubes diferentes (todos com direito a entrada de graça), mais de 120 quilômetros por hora em duas Ferraris diferentes, visitas noturnas ao Coliseu e a outros pontos turísticos da cidade (que é impressionantemente linda!) e uma noite não-dormida. De manhãzinha, me sentindo quebrado, me despedia do povo no aeroporto Leonardo DaVinci, com trajeto Roma-Athenas.

Já no aeroporto, esperando para embarcar no avião, podia-se ver pessoas de todas as partes do mundo. Andando um pouquinho, ouvia-se inglês; mais um pouquinho, espanhol; mais um poquinho, italiano; mais um pouquinho, sueco; e assim por diante. O engraçado é que era fácil distinguir os gregos do resto do planeta. São, em geral, pessoas realmente vivazes e quentes - traço que perdura desde a remota antigüidade helênica, há cerca de 3.000 anos. No avião, sentei ao lado de um grego completamente insano (coisa que, na verdade, não é bem a exceção por aqui, mas mais a regra...), e viemos conversando até Athenas. Era um sujeito debochado, que toda vez que via uma aeromoça italiana passar pelo corredor do avião dizia, com uma expressão facial singular, alguma coisa que, em português, seria mais ou menos "essas italianas... essas italianas... que gatas!". Além disso, se dizia muito fã de aviões e que gostaria muito de ser piloto. Isso era fácil de ver, uma vez que passou quase o vôo inteiro agarrando o assento dianteiro com as mãos e balançando o bicho de um lado para o outro como se fosse um manche de avião. O passageiro da frente (que também era grego), eventualmente, levantou-se e xingou uns trinta minutos, até que os ânimos se apaziguaram. O interessante é que o Giannis (esse grego que sentara ao meu lado) volta e meia chamava as aeromoças e falava com elas (em grego, porque não sabia italiano nem inglês) como se fosse a coisa mais normal do mundo. Frustrado, quando recebia um olhar do tipo "?!", devidamente seguido por um "scuza?!", se volvia a mim e dava ordens estritas de traduzir tudo o que falasse, pois suas dúvidas eram de importância mor.

Cerca de 1 hora e meia depois, regadas a muita risada, chegamos a Athenas, onde já havia uma comitiva esperando por mim no aeroporto. Depois de muito grito, muitos abraços e da euforia por rever velhas amizades, deixei as malas na casa do Thymios (meu maior amigo aqui na Grécia, e onde fiquei nas outras duas vezes que vim a Athenas) e saímos pra farra novamente (já que não dava mais tempo de ir à faculdade e dar conta da burocracia).

.:O Começo da Nova Vida:.
Sobre os gregos, há que se ter consciência de certas coisas: é importante que se tenha em mente que adoram sair, gritar, ser espaçosos, agitar... e realmente amam manter o astral altíssimo. Coisa rara é ver tristeza por aqui. São pessoas alegres e chegadas a uma boa gargalhada. Têm muito bom humor e mesmo que tenham acabado de te conhecer, podem fazer perguntas muito pessoais, do tipo "quanto você pesa?" ou "quantos anos você tem?" para as mulheres... e para os homens, "você está com uma aparência estranha. Há quantos meses você não dorme com alguém?". Geralmente é mais por piada, e sempre perguntam mais por curiosidade que por outro motivo. Isso quer dizer que não importa muito a resposta que você dê, eles não te olham diferente nem te consideram estranho. O pecado pra eles é não ter as dúvidas sanadas - por isso, gostam de perguntar, e também que façam perguntas a eles.

É interessante notar como palavras que continham significados tão profundos na filosofia grega antiga são usadas hoje em dia para coisas triviais... me faz pensar como as coisas podem mudar tanto, ainda que achemos que certas coisas durarão pra sempre. Às vezes as coisas continuam existindo... mas passam a portar um significado totalmente diferente daquele de outrora. E assim se vêem as coisas de forma completamente alheia. A luz é sempiterna, mas o prisma pelo qual se a vê é temporário, creio.

Certas coisas, entretanto, continuam tão atuais como o eram em épocas anteriores a Cristo aqui nas terras gregas. Desde a antigüidade o povo helênico tem se mostrado essencialmente musical, seja em sua própria língua, seja em seus trabalhos, como a poesia ou o teatro... ou como a própria música, que sempre tiveram em alta conta. Isso pode-se ver em áreas distintas do conhecimento humano... como por exemplo, os modos da música, chamados, não arbitrariamente, de modos gregos (que possuem nomes de regiões ou povos gregos, como dórico, lídio, frígio, jônico, eólico, etc.).

A música, pois, continua bastante presente na vida do grego. Ouvem muita coisa, e o mercado aqui é vasto. Gostam muito de música grega, mas também ouvem muita coisa "internacional", inclusive música brasileira. Conhecem Tom Jobim, Caetano e Toquinho, e até cantam músicas em português, mesmo. Chegam a manter sessões fixas de karaokê na casa de alguém, rodeados de muita bebida e comida (outra coisa que é inerente ao povo aqui: adoram comer!, e pode-se ver gente andando na rua, comendo sanduíches ou um dos pratos tradicionais gregos, chamado bougatsa [pronunciado bugátsa]). Ontem mesmo (11 de Outubro) fui a uma dessas sessões de karaokê e me diverti a valer. O pessoal canta junto, dança, pula e se diverte. O difícil por aqui é ir dormir cedo, porque sempre há alguma coisa pra se fazer. Meia-noite é quando as coisas ainda estão começando, e as opções são bastante variadas. Há espaço para todos os gostos e as pessoas se entendem bem. Aliás, coisa impressionante por aqui é que não há racismo. Ou discriminação de qualquer tipo, a propósito. Os gregos não têm um movimento separatista, não têm facções terroristas, e a maioria acha os negros interessantes (fisicamente, os gregos em geral têm pele branquinha e o cabelo preto e liso).

A Grécia é um país muito bonito, com uma língua complexa e específica, um povo cativante e com uma capital (Athenas) que não dorme, cheia de opções para quem gosta de sair e curtir a vida.

Mas é isso. Estou meio cansado de escrever, já. Semana que vem minhas aulinhas na faculdade começam... vamos ver no que vai dar. :-)

"Certamente dão nomes muito estranhos a doenças."
- Platão

Monday, October 13, 2003

F.A.Q. - Perguntas Mais Freqüentes

Essas são algumas das perguntas que mais recebi através de e-mails e de chats na Internet. Antes de me mandar um e-mail, dê uma olhadinha aqui, pois talvez a sua dúvida já tenha sido respondida - ou então você possa elaborar mais a sua pergunta, no caso dela ser muito vaga. :-)

Caso a sua dúvida não esteja aqui ou você queira simplesmente comentar ou sugerir alguma coisa... mande-me um e-mail.

(Última atualização em: 29/03/2010, às 10:20am)

Index:

1. Qual seu nome?
2. Onde você mora afinal? Brasil ou Grécia?
3. Como você foi parar na Grécia?
4. Por que a Grécia?
5. O que você/onde estuda?
6. Você volta ao Brasil ou vai ficar na Grécia pra sempre?
7. Agora que você está no BR você vai dar continuidade ao Vida Grega?
8. A Grécia é legal de se viver?
9. Como é a Grécia moderna?
10. Eu sempre estudei/sou curioso sobre a Grécia clássica, mas não sei nada sobre a Grécia moderna, pois nunca fui ao país. O que eu posso esperar?
12. Eu vou/estou planejando morar na Grécia. Que dicas você pode dar?
13. Eu estou [minha filha/meu irmão/meu pai/meu papagaio está] fazendo um trabalho sobre a Grécia. Você pode ajudar?

14. Eu quero perguntar uma outra coisa. Qual seu e-mail?





1. Qual seu nome?
Haggen Heydrich Kennedy.


2. Onde você mora afinal? Brasil ou Grécia?
Eu nasci em Salvador, Bahia, no Brasil; depois fui para Atenas, na Grécia, onde vivi por alguns anos; e em fins de 2006 finalmente voltei a Salvador, onde moro até agora. O blog foi escrito principalmente quando eu morava na Grécia.


3. Como você foi parar na Grécia?
Através de uma bolsa de estudos cedida em 2003 pelo Ministério das Relações Exteriores da Grécia (leia mais em Vida Grega - O que é? e no meu primeiro post do Vida Grega).


4. Por que a Grécia?
Eu sempre gostei da Grécia, desde pequeno. Sempre estudei sobre a história, a cultura grega da antigüidade, sobre seus filósofos e sobre sua língua. Eu havia vindo à Grécia em 2000 e em 2002 a turismo e vivi uma experiência agradável. Todos esses fatores contribuíram para minha tentativa de conseguir uma bolsa. Mas, mais que tudo, eu sempre quis viver por um tempo num país diferente. Eu iria a qualquer país que me oferecesse uma bolsa. Como foi na Grécia que eu consegui a oportunidade, foi à Grécia que eu vim.


5. O que você/onde estuda?
Eu consegui uma bolsa para História, Arqueologia e Grego Antigo na Universidade de Atenas, em Atenas, na Grécia. Estudei lá por alguns e anos e voltei ao Brasil. Agora trabalho (sou tradutor e intérprete) e estou estudando Direito.


6. Você volta ao Brasil ou vai ficar na Grécia pra sempre?
Eu já voltei ao Brasil. Moro em Salvador, na Bahia, cidade onde nasci. Mas eu nunca parti do princípio de querer ficar na Grécia pra sempre. Sempre tive (e tenho) a sensação de que há muita coisa nesse mundo para se conhecer - eu saí do Brasil por essa razão, na verdade. Nunca sairia e ficaria no primeiro país em que visitasse. E agora que estou no Brasil tambémnão sei se será o país em que ficarei pra sempre. Como eu disse, ainda há muita coisa a se ver e experimentar na vida. :-)


7. Quando você voltar ao BR você vai dar continuidade ao Vida Grega?
Essa é uma boa pergunta. Eu fiz o blog pensando em dar detalhes da Grécia enquando permanecia lá. Depois que voltei só atualizei o blog uma vez - infelizmente, é por questão de tempo, mesmo. Com trabalho + estudo, não sobra tempo pra muita coisa. Mas não vou apagar o blog, nem decretar sua descontinuação de modo taxativo. Vou deixar o site no ar e, quando sobrar um tempo, eu atualizo.


8. A Grécia é legal de se viver?
É. Mas a resposta provavelmente depende mais de você do que de mim. Eu gosto bastante da Grécia. É um país não tão avançado tecnologicamente quanto os países do norte europeu, não tão... "civilizado", digamos. Explico: Atenas é a capital da Grécia, e completamente diferente do resto do país. Muitas das áreas restantes da Grécia ainda possuem simples camponeses e pessoas humildes e simples, que falam uma variante "esquisita" do grego, mais antiga e com sotaques diferentes, desconhecendo o metrô, os carros esporte - nalguns lugares, mesmo a televisão. As ilhas mostam uma outra faceta do país - são mais de 200, e há para todo tipo de propósito: ilhas para quem quer namorar, ilhas para bacanália, ilhas para momentos de solidão e isolamento, ilhas de beleza natural, ilhas para mergulho, ilhas para gays e lésbicas, ilhas de praias, ilhas de sítios arqueológicos... as opções são realmente muitas. A Grécia pode ser bastante diferente dependendo da região onde você vive, mas, no geral, eu acho o país muito interessante, e com um grande potencial ainda a ser descoberto.


9. Como é a Grécia moderna?
Veja o item 8 acima e o item 10 logo abaixo.


10. Eu sempre estudei/sou curioso sobre a Grécia clássica, mas eu nunca fui ao país. O que eu posso esperar?
A Grécia moderna não tem quase nada a ver com a Grécia da antigüidade, exceto pelo visual incrível, pela geografia e pelos templos e construções que sobreviveram. O resto ainda mantém resquícios do que era, mas em geral é uma civilização bastante diferente: a cultura, o povo, a mentalidade. Generalizando, o povo grego é bastante hospitaleiro e costuma ser aberto e atencioso com o turistas, especialmente com os brasileiros. Os gregos geralmente gostam muito do Brasil e dos brasileiros, e mais ainda de futebol, por incrível que possa parecer. Em qualquer campeonato televisionado os gregos se encontram todos em frente à telinha, torcendo pelo time favorito de cada um. Durante a copa, o fenômeno é um pouco similar ao que acontece no Brasil, apesar de que em escala menor.

Os gregos adoram carros, frapê (café batido no mixer, parecido com um milkshake) e as "cafeterias" (algo entre o restaurante e o barzinho), além das boates. Geralmente os gregos gostam de levar uma vida tranqüila, apesar de serem bastante temperamentais, mesmo quando não querem - muitas vezes, quando estão apenas conversando, você pode pensar que estão brigando, tamanhos são os gritos. Quando estão irritados também podem gritar bastante com você, apesar de que 2 minutos depois agem como se nada tivesse acontecido - é como se fosse uma descarga da frustração: quando se desabafa, acaba completamente. Os gregos são geralmente muito honestos e sinceros, e podem dizer coisas na sua cara que te deixam muito sem jeito - é normal, e se te perguntarem alguma coisa, mesmo que estranha, responda normalmente. Eles estão mais interessados em matar a curiosidade do que em te aborrecer. :)


11. Eu vou/estou planejando morar na Grécia. Qual o custo de vida?
Em breve.


12. Eu vou/estou planejando morar na Grécia. Que dicas você pode dar?
Em breve.


13. Eu estou [minha filha/meu irmão/meu pai/meu papagaio está] fazendo um trabalho sobre a Grécia. Você pode ajudar?
Depende. Eu já recebi realmente vários e-mails com esse tipo de pedido, e, bom... não me machucam nem me atrapalham, mas eu tenho duas coisas a dizer:

1) Eu não vou fazer o seu trabalho por você. Isso é sério! Posso te apontar em determinada direção (dando o endereço de páginas, uma bibliografia etc.), dar conselhos ou mesmo discutir determinados assuntos para que você possa fazer o seu trabalho, mas eu definitivamente não posso fazer o seu dever de casa. Não é por malícia, é por outras razões, principalmente filosóficas. :-)

2) Bom... pode acontecer de eu não ter como te ajudar. Afinal, toda pergunta que começa com "você pode...?" está fadada a ter dois tipos pragmáticos de resposta: sim ou não. Se eu puder te ajudar, eu ajudo. Se não... bom, não. :-)


14. Eu quero perguntar/falar/sugerir uma outra coisa. Qual seu e-mail?
Devido ao monte de spambots que andam na Net, catalogando o e-mail de todo mundo (e, por conseqüência, devido ao fato de eu estar recebendo spam demais), eu tenho que recorrer a esses métodos. O endereço abaixo é uma foto - simplesmente digite o endereço no seu programa de e-mail favorito (não esqueça do underline ( _ ) entre o haggen e o kennedy) e pronto. :) Ah! E coloque um subject (assunto) que tenha a ver com o Vida Grega - pode ser que eu pense que é spam e delete sem querer. :-)

Copie o texto ao seu programa de email. :-)


Para mais informações, veja: