Saturday, April 15, 2006

Olímpia - A História

No post passado eu falei sobre as origens de Olímpia do ponto de vista da mitologia. Nessa nova entrada, eu vou falar sobre o santuário do ponto de vista histórico. Com relação ao blog em si, só lembrando: palavras ou frases em azul são links, podendo levar a um outro ponto do Vida Grega ou a uma página fora dele; palavras rosadas abrem tabelas explanatórias (é só passar o mouse por cima do termo - se quiser, pode testar aqui). :-)

A História

Na antigüidade, Olímpia pertencia a Pisa, um porto mítico da terra dos épios (a denominação "épios" vem do rei Épio), e a mitologia diz que seu primeiro rei foi Oenômao. Mas o que se sabe é que Olímpia tem sido habitada desde o terceiro milênio antes de Cristo (já faz 5.000 anos, portanto), principalmente através de achados arqueológicos encontrados na Colina de Crono e na Colina de Oenômao - casas construídas com pedras irregulares e ferramentas e potes feitos à mão. É interessante notar que nesse período tão antigo o povo adorava principalmente divindades femininas - Gaia, a mãe-terra, era a maior dessas divindades, apesar de existirem outras como Têmis, Ilítia e mesmo deuses como Cronos. Mais tarde, a adoração a deusas da fertilidade - relacionadas sobretudo a Hera, Deméter e Hipodâmia - tiveram como contrapartida a adoração a deuses dos mistérios da fertilidade, como Zeus, Héracles e Pélops.

O início dos jogos olímpicos é incerto, estando enterrado profundamente na era do mito, de forma que seja difícil dizer quando é que tudo começou. Sabe-se, por exemplo, que entre os séculos XI e VIII a.C. (esse intervalo de tempo é conhecido como Período Geométrico) a parte nordeste do Peloponeso foi invadida por uma tribo grega, os Dórios. Eles vinham do norte sob a liderança de seu rei, Óxilos (pronunciado óksilos), que terminou virando o rei da Élida, a região onde se encontrava Olímpia. Durante esses anos de domínio dos Dórios houve disputas entre os pisatenhos (ou seja, os habitantes de Pisa, cidade que controlava Olímpia) e os novos habitantes da Élida, os invasores. As disputas envolviam principalmente a administração do santuário de Olímpia (porque, veja bem, Olímpia era, acima de tudo, não uma cidade onde qualquer um pudesse morar, mas um santuário dedicado aos deuses onde o povo de Pisa fazia suas oferendas - bem como, mais tarde, o faria toda a Grécia) e sobre a gerência dos jogos olímpicos, que terminaram por ser descontinuados. O início primeiro dos jogos, portanto, não se sabe quando teve lugar, já que muito desse período ainda está imerso em trevas (o Período Geométrico faz parte da era conhecida como Idade das Trevas, assim chamada pelo fato de não haver material suficiente para explicar que tipo de época era aquela).

Foi um sujeito chamado Ífitos, que era um descendente de Óxilos (e, portanto, rei da Élida), que recontinuou os Jogos Olímpicos. Existem várias estatuetas em bronze e em terracota deste período. Isso prova e demonstra especialmente dois fatores: 1) a prosperidade do santuário de Olímpia; e 2) a dominância gradual da adoração a Zeus (já que em eras anteriores, eram as divindades femininas que tinham preponderância), que no século VI a.C. já havia se tornado a deidade principal do santuário. Diz-se, portanto, que foi em 776 a.C. que tiveram lugar os primeiros jogos olímpicos, mas, na verdade, essa data é somente uma convenção, já que não se pode datar o verdadeiro início das Olimpíadas. O ano 776 a.C. foi a primeira vez em que os vencedores dos jogos tiveram seus nomes registrados oficialmente, ou seja: havia material físico que (com)provava que naquele ano, realmente, as Olimpíadas haviam acontecido.

A partir do século VIII a.C. as Olimpíadas ganharam prestígio em todo o Peloponeso, bem como em todo o mundo grego. Foi aí que Ífitos da Élida, Licurgo de Esparta e Clístenes de Pisa entraram em acordo: os jogos deveriam acontecer a cada 5 anos. O acordo é de importância fundamental, sendo denominado "Trégua Sagrada". Era importante porque determinava a cessação de toda e qualquer hostilidade entre os estados que participavam das Olimpíadas durante todo o período dos jogos. O texto do tratado foi imortalizado em escrita, gravado no famoso disco de bronze de Ífitos e guardado no templo de Hera - o Heráion - onde ficou pelo menos até 160 d.C..

Olímpia - Importância Pan-helênica
Os esportes e a competição foram elementos determinantes na supremacia do espírito grego. Isso significa que Olímpia teve um papel de importância fundamental na Grécia Antiga. Por muitas razões, mas sobretudo se destacam dois motivos, que veremos a seguir.

Hoje em dia falamos em Grécia Antiga e, naturalmente, nos referimos ao que seria mais ou menos à área da Grécia atual, com algumas diferenças territoriais. Ao chamarmos essa área de Grécia, logo imaginamos uma unidade cultural, política, social, econômica... ou seja, todos os elementos que fazem de determinada área, de determinado conjunto de cidades ou estados, um país. Na antigüidade grega, entretanto, o que menos havia era unidade. Não existia um país grego. O que existia era um montante de cidades-estados (chamadas póleis) independentes entre si. Tentando simplificar a coisa, seria como se houvesse vários países diferentes num continente que seria a Grécia. Cada cidade-estado (Esparta, Atenas, Tebas etc.) tinha não só suas próprias leis, mas até seu próprio sistema de governo (enquanto Atenas havia adotado a democracia, por exemplo, era a oligarquia o sistema instituído em Esparta). Naturalmente, essas diferenças somente provocavam o distanciamento do ideal de unidade grega. Foi Olímpia, por outro lado, que, através do esporte, conseguiu a façanha de ir contra a corrente e despertar exatamente essa idéia, ainda que por muito tempo enfraquecida, de unidade helênica através do espírito competitivo. Foi um empreendimento inteligente a transformação do ponto fraco no ponto forte - fazendo com que as diferenças das cidades-estados trabalhassem em favor do todo, ao invés de contra. Esse primeiro ponto foi fundamental para que os gregos alcançassem o segundo fator.

As Guerras Persas foram um fenômeno que marcou a Grécia para sempre. A Pérsia, poderosíssimo império do oriente médio, havia entrado em conflito com a Grécia, aquela pequenina área do outro lado do Mar Egeu. Era uma disputa sem precendentes, porque parecia ridiculamente desequilibrada. O Império Persa dominava uma extensão territorial que ia desde a parte européia do helesponto até o rio Indo, fazendo fronteira com a Índia. Se acha que é pouco, dê uma olhada no mapa e compare com a área da Grécia - o contexto é mais ou menos o de um corpo pequenino, como o de uma criança, frente a um minotauro. Além disso, o Império Persa possuía riquezas inomináveis, estradas e rotas mercantis de tamanho surpreendente, ligando os pontos mais distantes do império, além de uma força militar ameaçadora de centenas e centenas de milhares de soldados. Para se ter uma idéia, diz-se que quando o exército Persa atravessou o Helesponto (a passagem que liga a Europa à Ásia Menor), a travessia durou sete dias e sete noites.

Tendo em vista tais características, quando o embate entre a Grécia e a Pérsia, que durou cerca de 52 anos, terminou, pode-se imaginar facilmente qual não foi o sentimento de orgulho e alegria dos gregos, que saíram, por incrível que pareça, vencedores da guerra. Muitos autores declararam que tal vitória havia sido um milagre. Pode ser. Mas, na verdade, há dois fatores a serem considerados: o primeiro é que, enquanto o exército persa lutava simplesmente porque seu rei assim determinava, todo o povo grego lutava por um ideal mais forte que qualquer subserviência - a liberdade, um valor grego que já vinha sendo alimentado há seculos. Para os gregos, que cultivavam o hábito de discutir os assuntos do Estado na ágora e junto ao próprio Conselho e ao próprio Chefe de Estado, onde a opinião de cada cidadão, por mais pobre que fosse, tinha basicamente o mesmo peso que o de qualquer cabeça do governo, seria impensável que fossem submetidos a uma forma de governo onde tivessem que responder a um rei autoritário e a um sistema onde suas opiniões e livre-arbítrios não houvessem qualquer valor.

O segundo fator é que, ao contrário da Pérsia, a Grécia havia se tornado uma nação de gigantes, tanto no campo intelectual como no físico. N. E. Gardner, um estudioso da Grécia Antiga, foi certeiro ao afirmar que "a vitória da Grécia sobre os Persas [...] foi a vitória de um punhado de atletas altamente treinados contra uma horda de bárbaros flácidos." Caso você não tenha percebido ainda, a palavra "atletas" pode ser traçada diretamente ao nome "Olímpia", que, enquanto Delfos, os filósofos e retóricos gregos elevaram o espírito e o intelecto helênico, foi esse santuário que fez com que esse mesmo avançado espírito grego fosse forjado pela supremacia física. Supremacia essa que, claro, foi um elemento indispensável na batalha contra os persas. No final das contas, portanto, Olímpia proporcionou muito mais que simples joguetes. Foi o alavancar de toda uma revolução espiritual e física que contaminou o mundo greco-parlante e que o permitiu lutar - e vencer - uma das mais terríveis ameaças do mundo de então: a destruição de seus valores por uma nação alienígena.

E no próximo post do Vida Grega: o fechamento do capítulo Olímpia - o sítio arqueológico, o museu, e, claro... muita informação sobre a história grega. :-)

A palavra de hoje é:

  • Ελευθερία (pronunciada "eleftheria"), que significa "liberdade".

Disclaimer
As figuras Moeda Filipe, Guerreiro Grego em Armadura, Hércules x Nesso e Hera (terracota) são © 1999 Michael Toubis Publications S.A.. Para republicá-las peça permissão.

Sunday, April 09, 2006

Olímpia - O Mito

Se me perguntassem, ano passado, qual é o meu lugar favorito na Grécia continental, diria que não sabia. Teria que apelar e citar alguma ilha (e aí já não seria mais Grécia continental) ou, mais provavelmente, Meteora, uma área localizada na Tessália, região ao norte da Ática (a Ática é a região onde Atenas está localizada) – qualquer dúvida, veja o mapa.

Hoje em dia, porém, minha opinião é outra. Apesar dos lindos monastérios sacrossantos de Meteora, bem como de sua paisagem fenomenal, serem de tirar o fôlego, um novo contendor se apresentou, sem querer, ano passado, quando fui ao Peloponeso e visitei Olímpia.

Olímpia é uma cidade super pequena (se a memória não me falha, não há mais que 10 ruas – a cidade inteira não deve ter mais que 1 ou 2 quilômetros quadrados de área), mas não se engane: ela é super aconchegante e confortável. Junto a Olímpia encontra-se a Olímpia Antiga (Αρχαία Ολυμπία), área onde foram preservados (tanto quanto foi possível) os achados do sítio arqueológico da Olímpia do período helenístico, clássico, e mesmo anterior (basicamente, a Grécia antes do ano 500/400 a.C.).

Imagine uma cidadezinha com uma rua principal de 200 metros, de onde brotam ruazinhas perpendiculares ainda menores. Todas essas ruas são limpíssimas (apesar da maré de turistas), a vegetação super verde, lojinhas enfileiradas na rua com lâmpadas antigas, jardins em vários cantos, um clima tão acolhedor que você se sente em casa. Assim é Olímpia, a cidade moderna.

Agora imagine, à margem norte da cidade, uma vereda ladeada por altas árvores, todas muito verdes e sadias, desembocando numa pontezinha que leva às portas do sítio arqueológico da Olímpia Antiga. Ali, portal para o mundo mítico, já é possível ver a paisagem de cores suaves e sentir a tranqüilidade e o sossego do local.

O Mito
Na Antigüidade, Olímpia gozava de prestígio na Grécia inteira. Mas os mitos que a rodeiam são muitos. Um desses mitos diz que o fundador dos jogos olímpicos foi Hércules Idæus, que veio de Creta com os irmãos, os Curetes, e organizou uma corrida cujo prêmio seria um ramo selvagem de oliva. Diz-se que daí surgiu o atletismo.

Um outra tradição dominante conta que as competições foram, na verdade, organizadas por Pélops, filho de Tântalo, após vencer Oenômao numa corrida de carros (leia mais sobre isso aqui).

Um outro mito diz que as competições foram estabelecidas por Zeus quando venceu Cronos (Saturno, na mitologia latina) numa competição de (supostamente) luta-livre. Um outro mito apresenta uma variante: as olimpíadas haveriam sido estabelecidas não por Zeus e Cronos, mas por Apolo após vencer: 1) Hermes (Mercúrio) numa corrida ; e 2) Ares (Marte) numa luta de boxe.

Há ainda outras versões. Uma diz que o fundador das competições foi Clímeno de Creta, ele próprio um descendente de Héracles Idæus (sobre quem comentei acima); enquanto outra afirma que foi Hércules, o famoso filho de Alcmene, quem criou os jogos olímpicos.

Alfeu e Aretusa
Um dos grandes mitos existentes em Olímpia é o de Alfeu (ou Alpheus) e Aretusa.

Aretusa, uma das Nereidas, havia retornado da Estinfália, onde caçava, à cidade de Olímpia. Como estava cansada, resolveu refrescar-se nas águas do Alfeu, que era um rio-deus, filho de Oceano e de Tétis. Quando Alfeu viu a nereida desnuda impressionou-se com a incrível beleza da ninfa e terminou se apaixonando perdidamente por ela. Contudo, quando o rio-deus confessou a Aretusa seu amor, a nereida fugiu, querendo evitar os avanços do rio. Alfeu, louco de amores, perseguiu Aretusa até a Élida, onde a ninfa, exausta da corrida, rogou a Ártemis que a salvasse. A deusa ouviu o chamado e levou a ninfa a Siracusa, na Sicília, onde a transformou numa fonte de água pra que ninguém a descobrisse. Só que ninguém contava com a persistência e sagacidade de Alfeu, que cruzou o mar atrás da amada. Ao dirigir-se a Siracusa, ele lutou para não deixar que suas águas se misturassem com a água salgada do mar. Inteligentemente, ele singrou o mar não pela sua superfície, mas por baixo do próprio mar, de forma que encontrou o manancial de Aretusa e pôde finalmente unir suas próprias águas àquelas, límpidas, da nereida.

Hoje em dia as águas do rio Alfeu fluem através das regiões da Arcádia e da Élida, na Grécia, adentrando no próprio Mar Jônico, enquanto Aretusa é o nome duma fonte em Siracusa (La Fonte Aretusa em italiano).

Fique ligado no post da próxima semana pra aprender um pouco mais sobre a famosa Olímpia. :-)

A palavra de hoje é:
  • μύθος (pronunciada "míthos"), e significa "mito".

Sunday, May 08, 2005

Peloponeso - Parte 1

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O Peloponeso é uma península enorme localizada no mar mediterrâneo e representando a parte sul da Grécia. Como quase tudo no país gira em torno de sua mitologia, também o nome "Peloponeso" vem do herói mítico Pélops.

A península abriga muitas cidades que exerceram papéis fundamentais tanto na mitologia grega como na própria história da Grécia. Alguns exemplos:

  • Esparta - a maior potência do Peloponeso durante o século IV a.C., conhecida pela disciplina e bravura de seus soldados. Inimiga-mor de Atenas durante a Guerra do Peloponeso.

  • Argos- cidade dominante do Peloponeso durante o século VII a.C., fundada por Foroneu, cujo filho Argo deu à cidade seu próprio nome. Argos foi também o engenheiro da famosa nau Argos (assim chamada devido ao seu construtor), que abrigou os Argonautas (heróis em busca do velocino de ouro - 56 tripulantes entre os quais encontravam-se Jasão, Hércules, Orfeu, Peleu, Tétis e Atalanta). Até certo ponto o termo "Argivos" era usado para se referir a todos os gregos.
  • Micenas - Um dos maiores centros gregos da antigüidade, cidade da Muralha dos Ciclopes e também de Agamêmnon (ou "Agamenão"), chefe grego que uniu o país na luta contra Tróia, dando início à Guerra de Tróia.Hércules | Free Image Hosting at www.ImageShack.us

  • Neméia - Cidade onde os Jogos de Neméia se situavam, e área por onde circulava o Leão de Neméia, fera aterrorizante e irmã da Esfinge de Tebas (enfrentada por Édipo), cuja vida foi finalmente tomada por Hércules (o primeiro de seus 12 trabalhos).
E, entre outras, Olímpia, uma das cidades mais famosas da Grécia. Foi ali que os Jogos Olímpicos primeiro tomaram lugar, no ano 776 a.C..

As Olimpíadas
Os gregos sempre foram chegados ao esporte, e as competições e os jogos podem ser traçados na história até o segundo milênio antes de Cristo - ou seja, há cinco mil anos.

Taurocatapsia | Free Image Hosting at www.ImageShack.usNo início os esportes possuíam um caráter religioso e tinham lugar na ilha de Creta. Como demonstração de destreza e maestria, os esportes eram parte de cerimônias religiosas. Através dele os atletas apresentavam-se frente a sacerdotes, membros da família real e outros nobres. Três dos mais importantes esportes eram a quivístima, o boxe e a taurocatapsia.

Quando os famosos micênicos (dos quais, séculos mais tarde, Agamêmnon seria rei) chegaram à Grécia e se estabeleceram no Peloponeso, os esportes se desenvolveram muito mais rápido, visto que a sociedade micênica possuía um caráter clara e altamente militar. Isso significa que a luta e os atos heróicos eram considerados valores essenciais, e a força e a competição eram características de nobreza.

Os jogos então começaram a se separar da função religiosa - a noção de competição havia finalmente sido introduzida; e a importância da vitória, estabelecida. Vale lembrar que essas idéias estão presentes nas obras de Homero - na Ilíada o autor descreve, pela primeira vez na história, os jogos da/na antigüidade, em honra daqueles que foram de valor e que já se encontram na outra vida, e que também tomavam lugar para honrar os antepassados; já na Odisséia, os jogos aconteciam por inúmeras razões, como pela chegada dum estrangeiro a determinada cidade (Ulisses saiu-se muito bem nos jogos, à propósito).

Free Image Hosting at www.ImageShack.usMuitos anos depois os esportes passaram a ser válidos a qualquer cidadão atleticamente competente - antes eles eram restringidos a nobres e indivíduos de destaque na sociedade. A maioria dos jogos, então, tomavam lugar em pistas: corridas, arremesso de disco, arremesso de lança, arco e flecha, boxe e luta livre; e o mais popular de todos, corrida de cavalos (geralmente de quadrigas). O desenvolvimento foi tal que um sujeito chamado Ifitos fez um acordo com Licurgo (rei e famoso legislador de Esparta) e com Clístenes (rei de Pissa), cujo texto oficial foi gravado num disco e guardado no Heráion, um templo em Olímpia (mais informações sobre o templo no próximo post do Vida Grega).

O acordo foi de importância decisiva para o desenvolvimento do santuário como centro pan-helênico pois foi visto como "tratado sagrado" - ele determinava que todo o mundo grego deveria cessar as hostilidades enquanto os jogos Olímpicos tomassem lugar. Ou seja, não importa que tipo de guerra assolasse o país: era necessário estabelecer a paz por quanto tempo fosse necessário para que as Olimpíadas fossem realizadas, até o seu final. Aos vitoriosos era dado o cotino - ação essa considerada sagrada, pois tinha vindo como ordem direta do oráculo de Delfos.

As Olimpíadas tomavam lugar de quatro em quatro anos, durante o mês de Julho ou Agosto. Diferentemente de hoje, entretanto, o termo "Olimpíada" era usado para descrever o intervalo de tempo entre dois Jogos Olímpicos, ou seja: o meio-tempo de quatro anos. Apesar de, no início, os Jogos só possuírem um único evento (a corrida em volta do Estádio) a ter lugar num único dia, rumo ao século V a.C. os jogos estabilizaram-se em 5 dias e consistiam em 10 eventos: corrida, pentatlo, salto, disco, lança ou dardo, luta livre, boxe e pancrácio.

Image hosted by Photobucket.comOs Jogos Olímpicos foram de importância decisiva na história da Grécia: a unidade nacional, racial e espiritual dos gregos foi forjada graças às Olimpíadas. Isso porque elas combinavam o espírito religioso (foi daí que os esportes começaram) dos gregos com seu passado heróico (vide sua mitologia, permeada de figuras divinas), de forma que fosse criada uma unificação do corpo, da mente e da alma, no maior grau de perfeição possível, sempre tendo como base valores universais e filosóficos. Era o alcance desse objetivo que projetava o indivíduo (e as cidades que representavam) como detentor do maior ideal de liberdade e virtude.

Palavra do dia:

  • Ολυμπιάδα (pronunciada "olimpiáda"), que significa "olimpíada(s)".

Saturday, April 02, 2005

Grécia Parte II - Atenas

No meu último post falei um pouco sobre Atenas. Nesse aqui vou extender meus comentários e falar um pouco mais sobre a cidade, já que Atenas é um padrão helênico, uma marca de importância-mor, além de ser capital do país.

Gregos festejando! | Free Image Hosting at www.ImageShack.usAtenas é grande. Tanto em população como em tamanho físico (expansão da cidade). São muitos os bairros, as áreas, as vistas, as sensações. Eu moro num bairro chamado Ilíssia, cujo nome provém do famoso rio Ílisso, que cruza a Ática (região territorial onde Atenas se localiza). Esse bairro, por sua vez, encontra-se no Demos chamado Zografo.

O Demos é coisa antiga, vindo da Velha Grécia, coisa inventada há mais de 3.000 anos. A palavra é a raiz de "população", ou seja: algo como "povo". Inicialmente, na Grécia Antiga, não existia essa idéia de coalição, de unidade territorial que nós temos (e que eles têm, também) hoje. À época o que havia eram dezenas - ou centenas - de cidades (ou melhor, povoados ou demoi [plural de "demos"]) localizadas em áreas relativamente conjuntas. O país só foi tomar consciência de que existia determinada unidade política quando os gregos resolveram celebrar a existência de Zeus, Deus Pai, com jogos em sua homenagem, a tomarem lugar em MetrôOlímpia, cidade no Peloponeso. Esses jogos levaram o nome da cidade em que eram sediados, sendo chamados Jogos Olímpicos, terminando por ganhar o adjetivo "panelênico". Veja bem: "jogos panelênicos". Os termos "Pan", palavra grega para "tudo" ou "todos", e "helênicos", termo grego para "gregos" (a Grécia, em grego, chama-se Hellas ou Hellada - com o passar do tempo, o H caiu em grego, mas continuou sendo mantido nas outras línguas devido à influência do latim, que, diferentemente do grego, manteve o H mesmo quando não era pronunciado), mostram que os jogos incluíam todos aqueles que constituíam, em essência, o mundo grego. As primeiras Olimpíadas tiveram lugar no ano 776 a.C., e eram disputadas aproximadamente a cada 4 anos.

Mas voltando ao lugar onde moro, "Zografo" é uma palavra grega para "pintura", e o Demos hoje em dia se relaciona melhor à palavra "distrito", que é um tanto incomum no Brasil (basicamente não se usa, a não ser para se referir ao Distrito Federal) , mas que na França, por exemplo, é um termo de uso corrente.

Parlamento Grego. | Free Image Hosting at www.ImageShack.usIlíssia localiza-se relativamente perto do centro (15 minutos de ônibus, ou 3 minutos de metrô). A parte principal do centro é um bairro chamado Syntagma, palavra grega para "constituição" - o lugar levou o nome devido à praça onde se formou a constituição da Grécia Moderna, ao fim do Império Otomano (um dos impérios mais cruéis da história, obtendo domínio sobre a Grécia por 400 anos - quase a idade do próprio Brasil!). Ali também se encontram o prédio do parlamento grego e a estação de metrô Syntagma (que tem conexões entre todas as linhas de metrô), além da supracitada praça Syntagma, hoje ponto de encontro de muita gente.

Seguindo em frente, temos o bairro "Omônia", uma palavra grega de difícil tradução. Geralmente as palavras que melhor se adequam a ela na língua portuguesa são "concórdia", "coalescência" e "união", unidas à palavra "paz". A melhor maneira de definir "Omônia" é pedindo que se imagine um círculo de pessoas, onde todos dão-se as mãos, ao mesmo tempo em que estão felizes e irradiam muita paz e muito amor. Isso é exatamente o que a palavra significa.

Omônia | Free Image Hosting at www.ImageShack.usNo entando, esse é um dos maiores paradoxos. "Omônia" é mais ou menos como o bairro Comércio em Salvador. É um lugar mais pobre e, de certa forma, perigoso. Para padrões europeus, é claro. Pra quem vive no Brasil ou na América Latina é coisa normal e corriqueira. Aqui nem ao menos existem pivetes de rua ou aqueles moleques que lavam o parabrisa dos carros no semáforo. Uns poucos mendigos ali, uns drogados cá, e, sim, uns poucos garotos que pedem esmola. Mas é muito difícil passar disso. A Grécia, mesmo sendo considerada um país relativamente pobre em relação a outras potências européias (como a Alemanha, por exemplo, que tem uma moeda firme como rocha) ainda está muito longe da situação brasileira.

Vista interna do Museu. | Free Image Hosting at www.ImageShack.usUm lance que eu curto aqui em Atenas é o fato de que as estações de metrô são sempre museus. É, parece estranho, mas é verdade. E há uma explicação bastante fácil: o que rola é que pra se fazer um metrô, logicamente há que se escavar (fundo) a terra para construir os túneis etc. Quando isso acontece as construções são sempre interrompidas pelo simples fato de que onde quer que escavem, sempre são achados artefatos arqueológicos. E aí vêm os arqueólogos, isolam a área, estudam os materiais, o sítio, pesquisam, recolhem tudo e só então se é possível continuar com o projeto subterrâneo do metrô. Depois de todo esse tempo, quando as estações são construídas, o governo coloca à mostra, nos corredores, parte dos achados que foram descobertos no local, e todo mundo pode ver. É interessante.

Pra terminar esse post, não poderia deixar de faltar a história da cidade. Se você ainda não percebeu, os nomes Atenas (cidade) e Atena (deusa) são bem parecidos. Não é por acaso. Na antigüidade os diferentes povos geralmente adotavam uma divindade como patrono (protetor) da cidade em que viviam. Em troca dessa proteção, os habitantes ofereciam libações, sacrifícios e oferendas ao(s) deus(es) protetor(es). No caso de Atenas, quando começou a ser vista como um demo (uma sociedade), viram que precisavam escolher um deus protetor. Até aí é história. O que vem a seguir é mitologia: de acordo com a lenda, o povo da cidade não sabia se deveria optar por Poseidon (Netuno, na mitologia romana) ou Atena (Minerva, na mitologia Romana) como patrono do povoado. Foi aí que os dois deuses resolveram se engajar numa batalha, de modos que o vencedor sairia como adorado dos habitantes.

A batalha tinha caráter pacífico, sendo mais um teste utilitário - para que o povo pudesse ver o que ganharia com a proteção do deus - do que uma guerra bélica. Poseidon, deus dos mares, tomou a iniciativa: fincou seu tridente no solo, e dali água jorrou abundatemente. A população não poderia estar mais contente; afinal, viviam a uma distância considerável de qualquer contato com água. E logicamente a água é um elemento vital para qualquer ser vivo nesse planeta. Poseidon estava confiante!

Contudo, uma tragédia entrou em curso: os habitantes, ao se utilizarem da água provida pelo deus, notaram que era perigoso bebê-la, pois as árvores com cuja água haviam irrigado haviam perecido, e os animais que dela haviam bebido estavam mortos. Só então descobriram a causa: a água oferecida era a do mar, e salgada como tal. Não era possível usá-la na agricultura ou pecuária.

Deusa Atena. | Free Image Hosting at www.ImageShack.usAtena, de esperanças renovadas, resolveu dar aos habitantes uma plantinha, que terminou por crescer e transformou-se na oliveira. A descoberta foi de extrema importância, pois aquele povo percebeu que as utilidades das olivas eram intermináveis: ela poderia ser usada na alimentação humana e pecuária, o óleo podia proteger a pele e cuidar de certos ferimentos, e auxiliava até mesmo no processo de construção de casas (mais ou menos como se usava óleo de baleia para construir muralhas durante o descobrimento do Brasil), entre uma infinidade de outras propriedades. Não deu outra: elegeram Atena como entidade protetora do vilarejo e nomearam a cidade com base no próprio nome da deusa (como era de costume na antigüidade).

A batalha não poderia deixar de ser documentada, e o Parthenon acabou exibindo a luta em seu pedimento ocidental.

Pedimento do Parthenon mostrando a batalha entre Atena e Poseidon. | Free Image Hosting at www.ImageShack.us





Palavras do dia:

  • Αθηνά (pronunciada "Athiná"), que significa [a deusa] Atena; e
  • Αθήνα (pronunciada "Athína"), que significa [a cidade] Atenas