Saturday, February 05, 2005

Contatos Imediatos do Estranho Grau

A Grécia é um país engraçado. Muita coisa estranha acontece por aqui. Atenas, cidade de 5 milhões de habitantes, guarda um poço de curiosidades - tanto compreensíveis como totalmente sem sentido.

Mas não é da Grécia que vou falar hoje. Vou abranger um espaço maior e falar por dois minutinhos dos Estados Unidos, que me fascinam.

.:E.U.A.:.
Ô paisinho estranho. Quem se lembra daquele incidente onde um garotinho no jardim de infância (ou alfabetização? de qualquer modo, não deveria ter mais que 8 anos) beijou a coleguinha? Foi um deus nos acuda... processo pra cá, multa pra lá... no Brasil o assunto estava na boca de todo mundo.


Eu já sabia que o problema com crianças era severo nos EUA, mas só recentemente fui descobrir que o contato físico entre adulto e criança é
proibido.

Isso é um assunto sério. Digamos que um professor esteja diante de duas crianças engajadas em pleno ato de pugilismo - ele não pode fazer nada. É proibido tocar nos garotinhos. Ou digamos que você seja um salva-vidas no clube, sentado à beira da piscina, vigilante. A não ser que você peça permissão aos pais para salvar a criança, ou que ela esteja inconsciente, não é permitido entrar na piscina e salvar os pequenos se os pais estiverem presentes (ainda que estejam dormindo ao sol).

Parece estranho (surreal, na verdade), mas os exemplos aí em cima são verdadeiros. Fico imaginando como deve ser para os professores, que em vez de darem amor aos alunos, se sentem aterrorizados, e não podem nem ficar a sós com os estudantes na classe ou no escritório porque podem ser processados.

Tem mais. Recentemente, no Colorado (EUA), duas adolescentes (Taylor Ostergaard, 17; e Lindsey Jo Zellitte, 18) foram processadas por oferecerem biscoitos a uma vizinha. As duas fizeram os biscoitos para preparar uma surpresa para os vizinhos no dia 31 de Julho e deixaram cestas em frente à porta da casa de cada morador da vizinhança, com um coraçõezinhos em vermelho ou rosa com uma mensagem que dizia "tenha uma ótima noite." As meninas tiveram que pagar 900 doletas na corte depois que a vizinha Wanita Renea Young (49) processou as duas, reclamando que nunca pedira biscoitos e que a surpresa causou um ataque de ansiedade que a levou ao hospital no dia seguinte. Uma das evidências usadas contra as garotas no julgamento foram as cartas de 6 vizinhos, que escreveram para Taylor e Lindsay agradecendo pelos biscoitos.

Como as coisas evoluem até chegar nesse ponto? É possível chamar o fato de "evolução"? Isso assusta, pra dizer o mínimo.

.:Macacos pagam por Pornografia?!:.
"Você pagaria para ver o traseiro de um macaco? Espero que não." É assim que começa um artigo publicado pela INTL (International News Tracking Log). De acordo com um estudo feito recentemente, macacos do gênero masculino abririam mão de recompensas em forma de suco para dar uma olhadela em fotos de macacas mostrando o... bem, o traseiro. Pelo modo como o experimento foi elaborado, o ato de abrir mão do suquinho seria o equivalente a pagar pelas imagens, de acordo com os pesquisadores. Da mesma forma, foi necessário pagar aos macacos (claro, também em forma de suquinho) para que olhassem fotos de macacos de hierarquia menor.

"E essa pesquisa pornográfica é pra quê, mesmo?", você se pergunta. De acordo com os pesquisadores, tem a ver com autismo. "Um dos problemas principais em autistas é que para eles não existe uma motivação em olhar para outros indivíduos", diz Platt, um dos cientistas. "E mesmo quando olham, eles parecem não avaliar certas informações, como a importância do indivíduo, intenções e expressões." Os macaquinhos, portanto, providenciariam "um excelente
modelo de como a motivação social em observar é processada em indivíduos normais. (...) E é um modelo que pode ser usado para explorar os mecanismos neurofisiológicos dessas motivações de uma forma que não pode ser feita com humanos. Por exemplo, podemos usar drogas que afetam processos neurais específicos para explorar a possibilidade de reproduzir o elemento em falta no organismo de animais autistas." Muito bem.

.:Last Word:.
Tive uma idéia essa semana. Tem outros blogs por aí de gente que vive em outro país. No final de cada post eles sempre dão uma palavrinha na língua nativa do país onde se encontram. Achei que seria legal fazer o mesmo com o Vida Grega. Então, lá vai. A palavra de hoje é:

  • αγάπη (pronunciada mais ou menos "agápi"), que significa amor. :-)


The United States is a nation of laws: badly written and randomly enforced.
- Frank Zappa (1940 - 1993)

Thursday, January 27, 2005

Ο φοίνικας αναβιώνει απ'τις στάχτες του!

É, eu sei! Tem realmente muito tempo.

Mas é assim mesmo, nem sempre na vida temos a oportunidade de fazer o que queremos quando queremos. No mais a mais, nem sabia que tinha gente que lia esse blog - sério, não é hipocrisia! Achava que só a família lia esse negócio. Fui descobrir que o blog tinha leitores quando conversei com Hyor no fim do ano passado. Ele me disse que o povo andava perguntando porque o Vida Grega não estava sendo atualizado. Recentemente (acho que há uma semana) encontrei Invoid no MSN - o dito cujo tinha me mandado e-mail pedindo para adicioná-lo à lista. Lá ele me fez a mesma pergunta: "e o blog? Morreu?"

Bom, não. Não morreu. Ou, se morreu, está ressuscitando. Vou tentar postar mais freqüentemente - à propósito, por "freqüentemente" eu quero dizer "não tão raramente quanto um post a cada 6 meses". Infelizmente não é tão fácil pra mim atualizar o Vida Grega a cada semana (bom, eu até posso fazer isso, mas serão posts de uma ou duas linhas - ou seja, não vão dizer muita coisa...), então vou tentar fixar isso na base de uma vez por mês.

Tudo bem, você deve estar pensando, "sujeito folgado esse... uma vez por mês?", mas é vero:
  • eu passo basicamente o dia todo fora de casa. Tenho aula das 9 da matina até as 6 da tarde. Às 6 vou pro restaurante da facul, e só estou em casa por volta das 8 da noite;

  • quando chego em casa estou tão cansado que não quero estudar, pensar, calcular ou me organizar em nada (isso inclui pensar e organizar uma nova entrada pro blog); e

  • quando sobra tempo livre, não quero fazer nada, porque... bem, porque uma hora a gente cansa de estudar, e também porque sou filho de deus. Sombra e água fresca, aquele "não-fazer-nada-zinho", é bom! :-)


Anyways, vamos às...

.:Novidades:.

Tem muita coisa, então temos que separar o trigo do joio. Vou tentar fazer um rápido wrap-up da coisa toda e updatear todo mundo.

Cheguei em Outubro de 2003 e, como não tinha lugar pra ficar, me hospedei com amigos gregos até achar um apartamento pra alugar. Procurei por dois meses até achar alguma coisa custeável - os preços variam geralmente entre 350 e 600 euros. É possível achar mais caro... e mais barato. O problema é que os mais baratos se localizam no centrão, alguma coisa como a Praça da Sé de São Paulo, ou, bem... a Liberdade, em Salvador.

Ok, ok. Liberdade é exagero, porque não existe coisa assim na Grécia (imagino que não exista na Europa inteira), mas, bom... apesar de não haver coisa de muito baixo nível por aqui também não é muito legal tentar a sorte e me meter em qualquer buraco que aparecer. Terminei achando um apê legal pertinho da faculdade, e perto do centro também (só 5 minutinhos de metrô, nem precisa fazer baldeação). Sorte porque os apartamentos perto da faculdade são os mais caros - lógico, o povo vem das ilhas da Grécia pra estudar em Athenas e têm que alugar um lugar pra ficar. Então os preços sobem. Geralmente estão na faixa de 600 euros, enquanto que esse aqui custa 200.

Resumo: no comecinho de janeiro saí da casa do meu amigo Efthymios (o grego que me hospedou quando vim à Grécia em 2000 e em 2002 - e, bom, de Outubro a Dezembro de 2003) e me instalei por aqui, onde tenho estado ever since.

Nesse período eu já estava em aulas. Aulinhas de grego, mesmo. Antes de ter aulas na universidade era necessário passar por um período semestral de aulas. Assim, logo no começo encarei 6 meses de grego na cabeça, com direito a um exame de proficiência a ter lugar logo após o término das lições - se quiser, pode dar uma olhadela nos meus testes e redações.

Aliás, a prova final foi tanto escrita como oral. Trabalho em dobro.

Mas tudo foi bem. Eu passei, e tive o verão pra mim. Esperei até que as aulas na universidade começassem.


.:E o Brasil? Esqueceu?:.

Todo mundo me pergunta: "o que aconteceu?", "não voltou pro Brasil no verão?", "cansou do país?", "não quis rever a família?", "e os amigos?", "foi o dinheiro?", "a passagem?", "a distância?", "o sucesso?", "a fama", "o estrelato?" E, definitivamente, a frase que mais ouvi: "você ainda vive?!"

Vivo, sim. Faço das minhas as palavras do Helloween: I'm Alive!

O problema é que tive algumas dificuldades com os documentos. Aprendi que o visto (aquele pelo qual lutei tanto quando estava no Brasil - tive que ir pro Rio de última hora por causa dele) só durava 3 meses, e tinha que conseguir um visto de permissão de residência - o famigerado permit. Que, deixe-me frisar, não é a mesma coisa que um visto, ou visa. O visto é simplesmente uma autorização de entrada no país; já o permit é uma autorização para residir legalmente no país. Ou seja, com um visto do consulado eu posso vir à Europa e permanecer na Grécia (ou em qualquer outro país, contanto que faça parte da união Schengen) por um período de 3 meses. Logicamente, se você viaja ao estrangeiro para fazer um curso de graduação levará muito mais que três meses - no meu caso, 5 anos. Ou seja, estarei então residindo no país, e, portanto, será necessário um visto de residência (olha o permit aí!), e não um visto de entrada (visa).

Dei entrada no tal do permit, mas o danado nunca saiu. E, portanto, não seria possível sair do país (porque sair eu até poderia, mas não poderia mais voltar, já que, teoricamente, passei mais de 3 meses no exterior sem um visto de residência). O resultado é que negariam minha entrada no país, e eu seria trazido de volta ao Brasil, no mesmo avião em que teria ido à Grécia.

Sobre esse incidente ouvi muita gente dizer muita coisa:
  • uns diziam que eu poderia sair do país, e que, quando voltasse, apresentasse documentos certificando que estudo numa universidade grega;

  • outros, que era só contactar a embaixada ou consulado no país de origem (no meu caso, o Brasil) e pedisse a eles um outro visto de entrada na Grécia;

  • que é possível sair do país por um mês em período de festas ou férias (natal/ano novo e verão).

Infelizmente:
  • Nadaver. Presenciei ao menos 4 casos de amigos meus aqui que caíram nessa conversa, e foram mandados ao país de origem no mesmo dia. Chegaram no aeroporto, apresentaram todos os papéis de que estudavam aqui, estavam legais, não faziam nada errado, tinha uma bolsa do ministério, e todos os argumentos que se possa imaginar. Não deu outra: sem o permit, não entra. Voltaram pra casa no mesmo avião em que vieram.


  • Nadaver. Meus pais tentaram conseguir um visto de entrada falando com alguém do consulado. Não adiantou: disseram que se eu já estava aqui, deveria tentar arranjar alguma coisa aqui. (O que, é claro, não aconteceu, já que falei com Deus e o mundo e nada deu certo)


  • É verdade. É possível. Mas é um pouco complicado viajar 16 horas para passar só uma semana, talvez duas (no caso de natal e ano novo), ou um mês (na verdade, 28 dias) e ter que voltar. Pra ir ao Brasil, tem que ser pelo menos uns 2 meses.

O resultado, no final das contas, é que não deu certo. Ainda estou à espera do permit - quem não tem passaporte europeu vai invariavelmente passar pela mesma situação caso venha à Europa pra ficar mais de 3 meses (ou 6 - eles dão a oportunidade de extender o visto de turismo para 6 meses, desde que você prove que tem dinheiro suficiente pra bancar a sua estadia no país). Ou seja, se você tem um avô, ou avó, da Espanha, Itália, Portugal, qualquer coisa... pode ir mexendo os pauzinhos aí pra conseguir um visto europeu, senão... é encarar - como diria MyCows - a vida dura. É pra tomar vários Dreher. :-)


O Parthenon de frente. Posted by Hello


.:E a Vida Atual?:.

E a vida atual? Pois é. Estou na facul, encarando as aulas, e, vou dizer - são difíceis. Bastante detalhistas e específicas. O material de que os gregos dispõem para História e Arqueologia (o curso que faço) é ridiculamente extenso. Para usar um termo grego, é homérico. Mas as aulas são verdadeiramente interessantes, e se o aluno tem interesse no assunto, é infalível: é quase impossível não prestar atenção às aulas.

Durante os meses de janeiro e fevereiro estarei em provas, o que quer dizer que estarei ocupado. Com exceção dos testes, entretanto, posso dizer que a vida vai bem. Ainda moro no mesmo apartamento - apesar de que pode acontecer de me mudar para os dormitórios da faculdade num futuro próximo - e tenho acesso à Internet (querendo mandar e-mail, pode escrever!). De vez em quando dou uma olhada no MSN, no Yahoo... raramente no ICQ.

Ah, mais uma coisa: fiz uma página, a Phosphoros, e um fórum chamado The Ancient Agora (a palavra em português se pronuncia "ágora"; em grego, "agorá") de História e Arqueologia (e, bom, de línguas também, já que são assuntos relacionados). É coisa recente.

A Ancient Agora foi feita porque procurei por fora (em português soa engraçado, mas "fora" é o plural de "forum" em Latim) sobre o assunto na Internet, e só achei dois - ambos de qualidade dúbia. Então achei que poderia criar algo de qualidade. É super recente, e ainda não tive tempo de fazer o "marketing", então... creio que demorará a crescer. Mas não tem problema. Minha opinião é a de que mesmo que haja somente 20 pessoas, se interessarem-se no assunto valerá a pena.

Quando à Phosphoros, a página foi feita porque aqui e ali eu tomo notas de alguns assuntos que estudo na faculdade, e pensei que seria legal fornecê-las "ao público", ou seja, coloca-las ao alcance de todos. Infelizmente, eu sempre escrevo ou em inglês ou em grego (meu português foi completamente relegado a conversas ou ao contato com pessoas de mesma língua que eu, o que raramente acontece), então leva um pouco de tempo para colocar as notas (ou textos, ou artigos) online porque não é só copiar, há que traduzi-las.

Mas não estou com pressa. A vida é bonita do jeito que é, vivendo cada dia. :-)

Até o próximo post!

Verberat nos et lacerat fortvna: patiamvr. Non est sævitia, certamen est, qvod qvo sæpivs adiermvs, fortiores erimvs.
- Seneca

Tuesday, March 02, 2004

Novo Blog, New Blog, Novus Blogus (?)...

Enquanto o meu novo post não vem, criei um novo blog. Para os que gostam de línguas, creio ser interessante. O único problema é que esta todo em inglês. :-) O nome? LinguaMundi.

Wednesday, February 25, 2004

Discurso Sem Verbos


Sei que ainda não é um post grego, mas enquanto o próximo não vem, dêem uma olhada nisso:

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Depois do discurso em sua posse no Instituto Histórico da Bahia, sem o uso da letra a, o filólogo baiano Antonio Sá volta à tribuna três anos mais tarde, desta vez para fazer um discurso sem usar um verbo sequer.
Eis o discurso de 1918 na íntegra, em sua forma ortográfica original:


"VARIEDADE LITERÁRIA"

Orgulhosa de si mesma, rica em vocabulos, mais do que rica, poderosa, a lingua portugueza!

Por que ?

Vasta, immensuravel, capaz de qualquer manejo; ora prompta à subfracção de uma letra principal, como o A, ora docil e obediente à falta de uma particula importante do estylo, como o Verbo.

Entretanto, sempre bella e sempre magestosa. Quer na prosa, como nos ensinamentos de Castilho e Herculano, quer no verso dôce ou candente de Guerra Junqueiro ou Castro Alves.

Que de mysterios na sua origem e que de belezas na sua formação !

Que de encantos na sua existencia e quanto de importante e transcendente nas suas ligações com as outras linguas do universo !

Que de carinho e doçura em muitas de suas expressões, e que de propriedade, de força, de symbolismo, em um numero sem conta de seus termos !

Dahi , a sua grandeza, a sua importancia, o seu valor, até mesmo no conhecimento parcial ou incompleto das suas profundezas, das suas fontes, dos seus segredos occultos quaes outras gemmas de subido valor ou inexhauriveis e inestimaveis filões de ouro de lei. Por isso, ao trabalhador paciente e infatigavel no descobrimento dos seus mysterios, a recompensa, a paga, o lucro certo em thesouros inexgotaveis.

E bem assim o prazer, a gloria do conhecimento e trato com esse idioma commum a dois povos, irmãos em raça, irmãos em origem, quer no passado repleto de veneras e honrarias, quer no presente todo cheio de esperanças em um futuro ainda melhor e mais explendoroso.

Para quem o convivio intimo e discerimonio com essa soberana tão altiva de sua linhagem mais que nobre, tão imponente nos seus foros de fidalga cortezã ?

Para bem poucos, em relação ao numero extraordinário de seus vassallos.

A uns, como Camões, Frei Luis de Souza, João de Deus, Vieira, Latino Coelho, Filinto, Bernardes, Eça de Queiroz e tantos outros, por indole, inclinação, intuição, gosto, prazer, necessidade, a exploração minuciosa, methodica e circumstanciada da formosura de seus arcanos, do não apparente de seus opulentos escrinios. A outros, por desejo imitativo, tendencia ao estudo, ou como eu, por divertimento oupassatempo. Todos, porem, grandes e pequenos, philologos ou não, sob o poderio dessa magestade irradiante, util e proveitosa, immarcessivel e bemfazeja como a luz do sol.

Della mil proveitos, della mil ensinamentos. Sem ella, para nós, povos latinos, a ignorancia de deslumbrantes riquezas, no conchego, na intimidade dos grandes mestres, desde os seculos remotos até aos nossos dias. Ali, Luiz Camões, poeta, guerreiro e mendigo, eterno consultor das analyses, super constructor da phrase tersa, alti eloquente cantor dos feitos gloriosos das gentes de Portugal, nos immortaes "Luziadas".

E, porque não Bocage, tão grande no seu estylo limpo e nitido, quão livre soberano, altivo e independente, verdadeiro e consiso na linguagem ?

No manuseio dos seus livros, a verdade do seu quilate, a expressão sincera do estylista como classico, e do classico como escriptor.

Depois, Alexandre Herculano, nas fontes abundantes de suas lições na nossa lingua; já nas maximas philosophicas de um profundo ensino ao povo, já entre o mais, no transumpto fiel de uma paixão humana no peito de um sacerdote, fóra da vida real, mas, debaixo do grilhão dos olhos de Hermengarda, imagem do sacrifício do orgulho e preconceito de uma raça. Batalhador audaz e destemido, corajoso e invencivel, tanto de homem quanto da féra, em "Eurico" o amor inextinguivel, e neste livro, em lanço por lanço, o manancial infindavel de uma literatura sadia e confortavel, pura e bôa, agradável e escorreita.

E o grande Camillo Castello Branco ? Em suas obras, o amor e as convenções sociaes sempre em lucta sem treguas e sem quartel. Em sua penna, o gladio vingador, a punição constante ao orgulho, sem visos de razão. Em seus assumptos, um grande bem às almas, um enorme prazer aos corações, uma nenia à paixão terrena e infeliz, uma benção, em summa, à pureza e à sublimidade dos mais serios e mais caros sentimentos affectivos.

Ao mesmo passo, o estudo profundo da nossa lingua, o ensino a todos nós, por meio das suas bellezas, o encantamento de um estylo todo delle, e, por isso mesmo, ao alcance de poucos e longe, da imitação de outrem.

Nos nossos dias, ainda lá no velho Portugal, "sob a nudez crua da verdade o manto diaphano da phantazia" de Eça de Queiroz. o imenso e incomparavel escriptor contemporaneo; commentador exacto dos usos e costumes da gente de sua terra, ao par de uma linguagem tao incisiva quão eloquente, tão mordaz quão penetrante, tão expressiva quão forte, e tão em harmonia com os sentimentos desses de lá e tambem de nós outros, seus irmãos por tantos laços. Nos seus livros, fieis espelhos do seu tempo, o caracter de um povo superior e o espirito brilhante de um literato immortal. Nas suas obras, a lição, a critica sensata e ferina, a postergação ao vício, o aniquilamento do futil, do hypocryta, na folhagem de falsa competencia ou na veste da honestidade bastarda, à luz diamantina do verdadeiro e impassivel julgamento dos homens, como elle, superiores no criterio e formidaveis na razão.

E, sobre todos, vivos ou mortos, poetas ou prosadores, de mim para commigo, Guerra Junqueiro, o rei da poesia, o sabio emfim, quer na doçura commovente dos versos de "Fiel", do causticante "O Melro", na cadência suave da "Musa em ferias", na delicadeza captivante dos "Simples", nas duras verdades da "Morte de D. João", na pungitiva commoção da "A Lágrima", na contrição das orações à Luz, ao Pão e ao Vinho , e tudo mais desse autor da "Patria" e tantos outros trabalhos de psychologia em rimas dc ferro em ou sopro ameno da brisa ciciante.

Entre nós, tanto na prosa quanto no verso, ora, um poeta sublime como Gonçalves Dias, colosso, na expressão de Vieira de Castro; ora, um condoreiro incomparável, como Castro Alves, o cantor dos escravos eterno nas "Espumas Flutuante" , na "Cachoeira de Paulo Affonso", na "Ode ao 2 de Julho", ou no "Navio Negreiro", em tudo finalmente, derivante de um cerebro ainda em flôr e tão cedo cadáver, mas, sempre o mesmo grandioso lyrico da phalange heróica da ultima geração. Ora, um Alvares de Azevedo, como o outro, flor em pó aos verdes annos, celebre nas "Noites da Taverna" ou na expressão em face à morte: "Que fatalidade, meu Pae!".

Excesso de talento contra o excesso da vida, resultado de seiva em dernazia em mente pouco sã, ausência de equilibrio natural decorrente do mcthodo ou meio de vida necessarios à conservação da existencia de um homem não commum, em Alvares de Azevedo, uma das mais lidimas esperanças da literatura nacional.

Ora, um Tobias Bareto, poeta e doutor, o mestre do direito, o publicista, o humilde musico de philarmonica e sua pequena terra, e, mais tarde, o visionario em relação aos tempos actuaes do direito internacional, nos faucess hiantes do mais moderno canhão. Ora, um Laurindo Rebello, embora triste de mais; um Casimiro de Abreu; um Gonzaga de "Marilia" um Fagundes Varella; um Raymundo Correa, no vôo brando das "Pombas" ou no conceito philosophico do "Mal Secreto"; um Emilio de Menezes, de settas sempre de riste; um Machado de Assis, o grande critico; e, entre os vivos, os Alberto de Oliveira; Olavo Bilac, o principe e o sonhador; o Arthur de Salles o nosso pontifice; Borges dos Reis, lidario das gemmas brasileiras, traductor incomparavel da "Musa Franceza"; e, em summa, Roberto Correa, tão simples no trato e tão rico de inspiração, como o amiguinho das creanças. Ora, entre os tribunos dos tempos de nós mais proximos, Victorino Pereira, Cesar Zama, Pedro Americano, Fausto Cardoso, a victima da politica por amor à sua terra tão pequena em territorio e tão grande em talentos, e tão feliz com seus filhos de valor.

Na epoca presente, em primeiro llogar Ruy Barbosa, o sol deste Brasil, defensor tanto na paz quanto na guerra dos direitos da humanidad soffredora. Advogado dos grandes e dos humildes, dos poderosos e dos fracos. Delegado do nosso pensamento; embaixador do nosso sentimentalismo. Traductor impeccavel das nossas aspirações e dos nossos desejos, no concerto dos homens mais eminentes do mundo. Para elle, de nós todos, tudo de melhor nas homenagens, senão, para todos nós o planoo inferior da nossa natural e justa veneração. Ao mesmo passo que, em logar de mór destaque, as Americas, a Europa, o universo, emfim, de braços em attitude amiga e cabeça curvas deante desse vulto tão pequeno no physico tão grande quanto um Deus. Para a hora terrivel de provações innominaveis da velha e culta Europa, em guerra de exterminio e de conquista, só o verbo inflamável e divino desse nosso Cicero, só a palavra evangelica do maior dos oradores do Brasil. Só a agua benta das suas conferencias magistraes sobre o direito das gentes na fervura indomavel das paixões em ebulição, no fogo acceso das ambições em jogo. Só o conforto de uma palavra como a desse apostolo do bem, desse missionario da fé, para estimulo dos combaten tes, para balsamo às feridas, para allivio aos martyres e retemperamento da fibra dos defensores impeterritos do sacrosanto pendão das leis da humanidade. A Ruy Barbosa, fiel da balança desta Republica, filho amado da Bahia, orgulho do Brasil, os meus anhelos bonançosos em pról de suas romagens do bem, da justiça, do trabalho e do amor aos fracos sob o poder dos mais fortes. A nós, o jubilo de uma raça inteira, o enthusiasmo de todos os patricios, olhos fixos no reflexo explendoroso desse astro de maior grandeza, no azulino céo da patria brasileira. De mim, pequenos demais, relativamente a sua immensidade o culto fervoroso ao seu talento, a veneração extrema à sua pessôa, o prazer de suas victorias retumbantes, uma homenagem simples como esta: seu nome, sua lembrança, num trabalho modesto qual o meu. Como philologo, conhecedor profundo da nossa lingua, orador fluente e imaginoso, dominador de massas populares, jornalista invencivel, jurista excelso e inegualavel, de mim, a citação de sua figura estupenda, a referencia à sua inconfundivel individualidade, para honra deste meu devaneio literario, producto exclusivo da minha paciencia e do meu grande esforço.

Agora, um hymno aos pés do throno do preclaro mestre, Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro. Quem mais senhor das imponencias da lingua portugueza que esse sabio preceptor de tantas gerações ? Quem mais conhecedor das subtilezas do nosso bello idioma que esse glorioso arauto de tanto espirito brilhante, de tantos homens eminentes, sempre repeitadores da prata de sua cabeça, da felicidade do seu lar, da sua vida operosa, dos seus esforços ingentes no ensino da mocidade do Brasil? Ninguém mais do que elle. Em cada dia da sua labuta educativa em beneficio dos estudiosos, mais um fio branco como linho, nos seus nevados cabellos, mais um sulco na sua face austera, mais uma benção do ceo sobre o seu casal, todo amor, todo carinho, todo venturas sem par. Immortal nos "Serões Grammaticaes", bem como na celebre discussão do "Codigo Civil"; sublime nas suas conferencias, qual a ultima "Educação e Moral", electrisante, commovedora, eloquente, profunda e classica, em todas as suas obras, a rigidez de uma fibra tensa para o ensino, para a convicção por meio dos bons exemplos e dos melhores principios de sã philosophia. Sem offensas a outrem, sem receio dos milindres alheios, para o mestre excelso da nossa lingua, quer como o mais perfeito e mais completo investigadordos seus veios de ouro; quer como o maior dirigente de milheiros de estudantes, os meus emboras mais effusivos, os meus applausos mais sinceros. Ao tempo em que, de mim, de todos os seus dilectos alumnos, seus amigos, um voto fervoroso pela conservação da sua vida, tão necessária à familia, quão util e proveitosa à comunhão social. No seu passado, um labaro (le esperanças na victoria da instrucção. Nas suas obras, um pendão em frente ao povo, como um incentivo na peleja pela conquista de uma carta de abc. Num pedestal de ouro, tão luzente quão valioso, em relação aos sessenta annos de vida trabalhosa, a figura patriarchal e solemne desse idolo da mocidaee, desse homem não commum, o Dr Ernesto Carneiro Ribeiro. E muito abaixo da peanha, na planicie das coisas vulgares, e, por isso mesmo, pequeninas, a plebe dos manuseadores dos bons livros. Mais abaixo ainda, na confusão do pó dos poucos conhecimentos, milhares de neophitos como eu. E para mim, seu nome refulgente, seu alto valimento, com fêcho desta minha variedade literária.

Hosannas, mestre !

Hosannas, grande educador !


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Retirado de Discurso Sem Verbos