Thursday, January 27, 2005

Ο φοίνικας αναβιώνει απ'τις στάχτες του!

É, eu sei! Tem realmente muito tempo.

Mas é assim mesmo, nem sempre na vida temos a oportunidade de fazer o que queremos quando queremos. No mais a mais, nem sabia que tinha gente que lia esse blog - sério, não é hipocrisia! Achava que só a família lia esse negócio. Fui descobrir que o blog tinha leitores quando conversei com Hyor no fim do ano passado. Ele me disse que o povo andava perguntando porque o Vida Grega não estava sendo atualizado. Recentemente (acho que há uma semana) encontrei Invoid no MSN - o dito cujo tinha me mandado e-mail pedindo para adicioná-lo à lista. Lá ele me fez a mesma pergunta: "e o blog? Morreu?"

Bom, não. Não morreu. Ou, se morreu, está ressuscitando. Vou tentar postar mais freqüentemente - à propósito, por "freqüentemente" eu quero dizer "não tão raramente quanto um post a cada 6 meses". Infelizmente não é tão fácil pra mim atualizar o Vida Grega a cada semana (bom, eu até posso fazer isso, mas serão posts de uma ou duas linhas - ou seja, não vão dizer muita coisa...), então vou tentar fixar isso na base de uma vez por mês.

Tudo bem, você deve estar pensando, "sujeito folgado esse... uma vez por mês?", mas é vero:
  • eu passo basicamente o dia todo fora de casa. Tenho aula das 9 da matina até as 6 da tarde. Às 6 vou pro restaurante da facul, e só estou em casa por volta das 8 da noite;

  • quando chego em casa estou tão cansado que não quero estudar, pensar, calcular ou me organizar em nada (isso inclui pensar e organizar uma nova entrada pro blog); e

  • quando sobra tempo livre, não quero fazer nada, porque... bem, porque uma hora a gente cansa de estudar, e também porque sou filho de deus. Sombra e água fresca, aquele "não-fazer-nada-zinho", é bom! :-)


Anyways, vamos às...

.:Novidades:.

Tem muita coisa, então temos que separar o trigo do joio. Vou tentar fazer um rápido wrap-up da coisa toda e updatear todo mundo.

Cheguei em Outubro de 2003 e, como não tinha lugar pra ficar, me hospedei com amigos gregos até achar um apartamento pra alugar. Procurei por dois meses até achar alguma coisa custeável - os preços variam geralmente entre 350 e 600 euros. É possível achar mais caro... e mais barato. O problema é que os mais baratos se localizam no centrão, alguma coisa como a Praça da Sé de São Paulo, ou, bem... a Liberdade, em Salvador.

Ok, ok. Liberdade é exagero, porque não existe coisa assim na Grécia (imagino que não exista na Europa inteira), mas, bom... apesar de não haver coisa de muito baixo nível por aqui também não é muito legal tentar a sorte e me meter em qualquer buraco que aparecer. Terminei achando um apê legal pertinho da faculdade, e perto do centro também (só 5 minutinhos de metrô, nem precisa fazer baldeação). Sorte porque os apartamentos perto da faculdade são os mais caros - lógico, o povo vem das ilhas da Grécia pra estudar em Athenas e têm que alugar um lugar pra ficar. Então os preços sobem. Geralmente estão na faixa de 600 euros, enquanto que esse aqui custa 200.

Resumo: no comecinho de janeiro saí da casa do meu amigo Efthymios (o grego que me hospedou quando vim à Grécia em 2000 e em 2002 - e, bom, de Outubro a Dezembro de 2003) e me instalei por aqui, onde tenho estado ever since.

Nesse período eu já estava em aulas. Aulinhas de grego, mesmo. Antes de ter aulas na universidade era necessário passar por um período semestral de aulas. Assim, logo no começo encarei 6 meses de grego na cabeça, com direito a um exame de proficiência a ter lugar logo após o término das lições - se quiser, pode dar uma olhadela nos meus testes e redações.

Aliás, a prova final foi tanto escrita como oral. Trabalho em dobro.

Mas tudo foi bem. Eu passei, e tive o verão pra mim. Esperei até que as aulas na universidade começassem.


.:E o Brasil? Esqueceu?:.

Todo mundo me pergunta: "o que aconteceu?", "não voltou pro Brasil no verão?", "cansou do país?", "não quis rever a família?", "e os amigos?", "foi o dinheiro?", "a passagem?", "a distância?", "o sucesso?", "a fama", "o estrelato?" E, definitivamente, a frase que mais ouvi: "você ainda vive?!"

Vivo, sim. Faço das minhas as palavras do Helloween: I'm Alive!

O problema é que tive algumas dificuldades com os documentos. Aprendi que o visto (aquele pelo qual lutei tanto quando estava no Brasil - tive que ir pro Rio de última hora por causa dele) só durava 3 meses, e tinha que conseguir um visto de permissão de residência - o famigerado permit. Que, deixe-me frisar, não é a mesma coisa que um visto, ou visa. O visto é simplesmente uma autorização de entrada no país; já o permit é uma autorização para residir legalmente no país. Ou seja, com um visto do consulado eu posso vir à Europa e permanecer na Grécia (ou em qualquer outro país, contanto que faça parte da união Schengen) por um período de 3 meses. Logicamente, se você viaja ao estrangeiro para fazer um curso de graduação levará muito mais que três meses - no meu caso, 5 anos. Ou seja, estarei então residindo no país, e, portanto, será necessário um visto de residência (olha o permit aí!), e não um visto de entrada (visa).

Dei entrada no tal do permit, mas o danado nunca saiu. E, portanto, não seria possível sair do país (porque sair eu até poderia, mas não poderia mais voltar, já que, teoricamente, passei mais de 3 meses no exterior sem um visto de residência). O resultado é que negariam minha entrada no país, e eu seria trazido de volta ao Brasil, no mesmo avião em que teria ido à Grécia.

Sobre esse incidente ouvi muita gente dizer muita coisa:
  • uns diziam que eu poderia sair do país, e que, quando voltasse, apresentasse documentos certificando que estudo numa universidade grega;

  • outros, que era só contactar a embaixada ou consulado no país de origem (no meu caso, o Brasil) e pedisse a eles um outro visto de entrada na Grécia;

  • que é possível sair do país por um mês em período de festas ou férias (natal/ano novo e verão).

Infelizmente:
  • Nadaver. Presenciei ao menos 4 casos de amigos meus aqui que caíram nessa conversa, e foram mandados ao país de origem no mesmo dia. Chegaram no aeroporto, apresentaram todos os papéis de que estudavam aqui, estavam legais, não faziam nada errado, tinha uma bolsa do ministério, e todos os argumentos que se possa imaginar. Não deu outra: sem o permit, não entra. Voltaram pra casa no mesmo avião em que vieram.


  • Nadaver. Meus pais tentaram conseguir um visto de entrada falando com alguém do consulado. Não adiantou: disseram que se eu já estava aqui, deveria tentar arranjar alguma coisa aqui. (O que, é claro, não aconteceu, já que falei com Deus e o mundo e nada deu certo)


  • É verdade. É possível. Mas é um pouco complicado viajar 16 horas para passar só uma semana, talvez duas (no caso de natal e ano novo), ou um mês (na verdade, 28 dias) e ter que voltar. Pra ir ao Brasil, tem que ser pelo menos uns 2 meses.

O resultado, no final das contas, é que não deu certo. Ainda estou à espera do permit - quem não tem passaporte europeu vai invariavelmente passar pela mesma situação caso venha à Europa pra ficar mais de 3 meses (ou 6 - eles dão a oportunidade de extender o visto de turismo para 6 meses, desde que você prove que tem dinheiro suficiente pra bancar a sua estadia no país). Ou seja, se você tem um avô, ou avó, da Espanha, Itália, Portugal, qualquer coisa... pode ir mexendo os pauzinhos aí pra conseguir um visto europeu, senão... é encarar - como diria MyCows - a vida dura. É pra tomar vários Dreher. :-)


O Parthenon de frente. Posted by Hello


.:E a Vida Atual?:.

E a vida atual? Pois é. Estou na facul, encarando as aulas, e, vou dizer - são difíceis. Bastante detalhistas e específicas. O material de que os gregos dispõem para História e Arqueologia (o curso que faço) é ridiculamente extenso. Para usar um termo grego, é homérico. Mas as aulas são verdadeiramente interessantes, e se o aluno tem interesse no assunto, é infalível: é quase impossível não prestar atenção às aulas.

Durante os meses de janeiro e fevereiro estarei em provas, o que quer dizer que estarei ocupado. Com exceção dos testes, entretanto, posso dizer que a vida vai bem. Ainda moro no mesmo apartamento - apesar de que pode acontecer de me mudar para os dormitórios da faculdade num futuro próximo - e tenho acesso à Internet (querendo mandar e-mail, pode escrever!). De vez em quando dou uma olhada no MSN, no Yahoo... raramente no ICQ.

Ah, mais uma coisa: fiz uma página, a Phosphoros, e um fórum chamado The Ancient Agora (a palavra em português se pronuncia "ágora"; em grego, "agorá") de História e Arqueologia (e, bom, de línguas também, já que são assuntos relacionados). É coisa recente.

A Ancient Agora foi feita porque procurei por fora (em português soa engraçado, mas "fora" é o plural de "forum" em Latim) sobre o assunto na Internet, e só achei dois - ambos de qualidade dúbia. Então achei que poderia criar algo de qualidade. É super recente, e ainda não tive tempo de fazer o "marketing", então... creio que demorará a crescer. Mas não tem problema. Minha opinião é a de que mesmo que haja somente 20 pessoas, se interessarem-se no assunto valerá a pena.

Quando à Phosphoros, a página foi feita porque aqui e ali eu tomo notas de alguns assuntos que estudo na faculdade, e pensei que seria legal fornecê-las "ao público", ou seja, coloca-las ao alcance de todos. Infelizmente, eu sempre escrevo ou em inglês ou em grego (meu português foi completamente relegado a conversas ou ao contato com pessoas de mesma língua que eu, o que raramente acontece), então leva um pouco de tempo para colocar as notas (ou textos, ou artigos) online porque não é só copiar, há que traduzi-las.

Mas não estou com pressa. A vida é bonita do jeito que é, vivendo cada dia. :-)

Até o próximo post!

Verberat nos et lacerat fortvna: patiamvr. Non est sævitia, certamen est, qvod qvo sæpivs adiermvs, fortiores erimvs.
- Seneca

Tuesday, March 02, 2004

Novo Blog, New Blog, Novus Blogus (?)...

Enquanto o meu novo post não vem, criei um novo blog. Para os que gostam de línguas, creio ser interessante. O único problema é que esta todo em inglês. :-) O nome? LinguaMundi.

Wednesday, February 25, 2004

Discurso Sem Verbos


Sei que ainda não é um post grego, mas enquanto o próximo não vem, dêem uma olhada nisso:

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Depois do discurso em sua posse no Instituto Histórico da Bahia, sem o uso da letra a, o filólogo baiano Antonio Sá volta à tribuna três anos mais tarde, desta vez para fazer um discurso sem usar um verbo sequer.
Eis o discurso de 1918 na íntegra, em sua forma ortográfica original:


"VARIEDADE LITERÁRIA"

Orgulhosa de si mesma, rica em vocabulos, mais do que rica, poderosa, a lingua portugueza!

Por que ?

Vasta, immensuravel, capaz de qualquer manejo; ora prompta à subfracção de uma letra principal, como o A, ora docil e obediente à falta de uma particula importante do estylo, como o Verbo.

Entretanto, sempre bella e sempre magestosa. Quer na prosa, como nos ensinamentos de Castilho e Herculano, quer no verso dôce ou candente de Guerra Junqueiro ou Castro Alves.

Que de mysterios na sua origem e que de belezas na sua formação !

Que de encantos na sua existencia e quanto de importante e transcendente nas suas ligações com as outras linguas do universo !

Que de carinho e doçura em muitas de suas expressões, e que de propriedade, de força, de symbolismo, em um numero sem conta de seus termos !

Dahi , a sua grandeza, a sua importancia, o seu valor, até mesmo no conhecimento parcial ou incompleto das suas profundezas, das suas fontes, dos seus segredos occultos quaes outras gemmas de subido valor ou inexhauriveis e inestimaveis filões de ouro de lei. Por isso, ao trabalhador paciente e infatigavel no descobrimento dos seus mysterios, a recompensa, a paga, o lucro certo em thesouros inexgotaveis.

E bem assim o prazer, a gloria do conhecimento e trato com esse idioma commum a dois povos, irmãos em raça, irmãos em origem, quer no passado repleto de veneras e honrarias, quer no presente todo cheio de esperanças em um futuro ainda melhor e mais explendoroso.

Para quem o convivio intimo e discerimonio com essa soberana tão altiva de sua linhagem mais que nobre, tão imponente nos seus foros de fidalga cortezã ?

Para bem poucos, em relação ao numero extraordinário de seus vassallos.

A uns, como Camões, Frei Luis de Souza, João de Deus, Vieira, Latino Coelho, Filinto, Bernardes, Eça de Queiroz e tantos outros, por indole, inclinação, intuição, gosto, prazer, necessidade, a exploração minuciosa, methodica e circumstanciada da formosura de seus arcanos, do não apparente de seus opulentos escrinios. A outros, por desejo imitativo, tendencia ao estudo, ou como eu, por divertimento oupassatempo. Todos, porem, grandes e pequenos, philologos ou não, sob o poderio dessa magestade irradiante, util e proveitosa, immarcessivel e bemfazeja como a luz do sol.

Della mil proveitos, della mil ensinamentos. Sem ella, para nós, povos latinos, a ignorancia de deslumbrantes riquezas, no conchego, na intimidade dos grandes mestres, desde os seculos remotos até aos nossos dias. Ali, Luiz Camões, poeta, guerreiro e mendigo, eterno consultor das analyses, super constructor da phrase tersa, alti eloquente cantor dos feitos gloriosos das gentes de Portugal, nos immortaes "Luziadas".

E, porque não Bocage, tão grande no seu estylo limpo e nitido, quão livre soberano, altivo e independente, verdadeiro e consiso na linguagem ?

No manuseio dos seus livros, a verdade do seu quilate, a expressão sincera do estylista como classico, e do classico como escriptor.

Depois, Alexandre Herculano, nas fontes abundantes de suas lições na nossa lingua; já nas maximas philosophicas de um profundo ensino ao povo, já entre o mais, no transumpto fiel de uma paixão humana no peito de um sacerdote, fóra da vida real, mas, debaixo do grilhão dos olhos de Hermengarda, imagem do sacrifício do orgulho e preconceito de uma raça. Batalhador audaz e destemido, corajoso e invencivel, tanto de homem quanto da féra, em "Eurico" o amor inextinguivel, e neste livro, em lanço por lanço, o manancial infindavel de uma literatura sadia e confortavel, pura e bôa, agradável e escorreita.

E o grande Camillo Castello Branco ? Em suas obras, o amor e as convenções sociaes sempre em lucta sem treguas e sem quartel. Em sua penna, o gladio vingador, a punição constante ao orgulho, sem visos de razão. Em seus assumptos, um grande bem às almas, um enorme prazer aos corações, uma nenia à paixão terrena e infeliz, uma benção, em summa, à pureza e à sublimidade dos mais serios e mais caros sentimentos affectivos.

Ao mesmo passo, o estudo profundo da nossa lingua, o ensino a todos nós, por meio das suas bellezas, o encantamento de um estylo todo delle, e, por isso mesmo, ao alcance de poucos e longe, da imitação de outrem.

Nos nossos dias, ainda lá no velho Portugal, "sob a nudez crua da verdade o manto diaphano da phantazia" de Eça de Queiroz. o imenso e incomparavel escriptor contemporaneo; commentador exacto dos usos e costumes da gente de sua terra, ao par de uma linguagem tao incisiva quão eloquente, tão mordaz quão penetrante, tão expressiva quão forte, e tão em harmonia com os sentimentos desses de lá e tambem de nós outros, seus irmãos por tantos laços. Nos seus livros, fieis espelhos do seu tempo, o caracter de um povo superior e o espirito brilhante de um literato immortal. Nas suas obras, a lição, a critica sensata e ferina, a postergação ao vício, o aniquilamento do futil, do hypocryta, na folhagem de falsa competencia ou na veste da honestidade bastarda, à luz diamantina do verdadeiro e impassivel julgamento dos homens, como elle, superiores no criterio e formidaveis na razão.

E, sobre todos, vivos ou mortos, poetas ou prosadores, de mim para commigo, Guerra Junqueiro, o rei da poesia, o sabio emfim, quer na doçura commovente dos versos de "Fiel", do causticante "O Melro", na cadência suave da "Musa em ferias", na delicadeza captivante dos "Simples", nas duras verdades da "Morte de D. João", na pungitiva commoção da "A Lágrima", na contrição das orações à Luz, ao Pão e ao Vinho , e tudo mais desse autor da "Patria" e tantos outros trabalhos de psychologia em rimas dc ferro em ou sopro ameno da brisa ciciante.

Entre nós, tanto na prosa quanto no verso, ora, um poeta sublime como Gonçalves Dias, colosso, na expressão de Vieira de Castro; ora, um condoreiro incomparável, como Castro Alves, o cantor dos escravos eterno nas "Espumas Flutuante" , na "Cachoeira de Paulo Affonso", na "Ode ao 2 de Julho", ou no "Navio Negreiro", em tudo finalmente, derivante de um cerebro ainda em flôr e tão cedo cadáver, mas, sempre o mesmo grandioso lyrico da phalange heróica da ultima geração. Ora, um Alvares de Azevedo, como o outro, flor em pó aos verdes annos, celebre nas "Noites da Taverna" ou na expressão em face à morte: "Que fatalidade, meu Pae!".

Excesso de talento contra o excesso da vida, resultado de seiva em dernazia em mente pouco sã, ausência de equilibrio natural decorrente do mcthodo ou meio de vida necessarios à conservação da existencia de um homem não commum, em Alvares de Azevedo, uma das mais lidimas esperanças da literatura nacional.

Ora, um Tobias Bareto, poeta e doutor, o mestre do direito, o publicista, o humilde musico de philarmonica e sua pequena terra, e, mais tarde, o visionario em relação aos tempos actuaes do direito internacional, nos faucess hiantes do mais moderno canhão. Ora, um Laurindo Rebello, embora triste de mais; um Casimiro de Abreu; um Gonzaga de "Marilia" um Fagundes Varella; um Raymundo Correa, no vôo brando das "Pombas" ou no conceito philosophico do "Mal Secreto"; um Emilio de Menezes, de settas sempre de riste; um Machado de Assis, o grande critico; e, entre os vivos, os Alberto de Oliveira; Olavo Bilac, o principe e o sonhador; o Arthur de Salles o nosso pontifice; Borges dos Reis, lidario das gemmas brasileiras, traductor incomparavel da "Musa Franceza"; e, em summa, Roberto Correa, tão simples no trato e tão rico de inspiração, como o amiguinho das creanças. Ora, entre os tribunos dos tempos de nós mais proximos, Victorino Pereira, Cesar Zama, Pedro Americano, Fausto Cardoso, a victima da politica por amor à sua terra tão pequena em territorio e tão grande em talentos, e tão feliz com seus filhos de valor.

Na epoca presente, em primeiro llogar Ruy Barbosa, o sol deste Brasil, defensor tanto na paz quanto na guerra dos direitos da humanidad soffredora. Advogado dos grandes e dos humildes, dos poderosos e dos fracos. Delegado do nosso pensamento; embaixador do nosso sentimentalismo. Traductor impeccavel das nossas aspirações e dos nossos desejos, no concerto dos homens mais eminentes do mundo. Para elle, de nós todos, tudo de melhor nas homenagens, senão, para todos nós o planoo inferior da nossa natural e justa veneração. Ao mesmo passo que, em logar de mór destaque, as Americas, a Europa, o universo, emfim, de braços em attitude amiga e cabeça curvas deante desse vulto tão pequeno no physico tão grande quanto um Deus. Para a hora terrivel de provações innominaveis da velha e culta Europa, em guerra de exterminio e de conquista, só o verbo inflamável e divino desse nosso Cicero, só a palavra evangelica do maior dos oradores do Brasil. Só a agua benta das suas conferencias magistraes sobre o direito das gentes na fervura indomavel das paixões em ebulição, no fogo acceso das ambições em jogo. Só o conforto de uma palavra como a desse apostolo do bem, desse missionario da fé, para estimulo dos combaten tes, para balsamo às feridas, para allivio aos martyres e retemperamento da fibra dos defensores impeterritos do sacrosanto pendão das leis da humanidade. A Ruy Barbosa, fiel da balança desta Republica, filho amado da Bahia, orgulho do Brasil, os meus anhelos bonançosos em pról de suas romagens do bem, da justiça, do trabalho e do amor aos fracos sob o poder dos mais fortes. A nós, o jubilo de uma raça inteira, o enthusiasmo de todos os patricios, olhos fixos no reflexo explendoroso desse astro de maior grandeza, no azulino céo da patria brasileira. De mim, pequenos demais, relativamente a sua immensidade o culto fervoroso ao seu talento, a veneração extrema à sua pessôa, o prazer de suas victorias retumbantes, uma homenagem simples como esta: seu nome, sua lembrança, num trabalho modesto qual o meu. Como philologo, conhecedor profundo da nossa lingua, orador fluente e imaginoso, dominador de massas populares, jornalista invencivel, jurista excelso e inegualavel, de mim, a citação de sua figura estupenda, a referencia à sua inconfundivel individualidade, para honra deste meu devaneio literario, producto exclusivo da minha paciencia e do meu grande esforço.

Agora, um hymno aos pés do throno do preclaro mestre, Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro. Quem mais senhor das imponencias da lingua portugueza que esse sabio preceptor de tantas gerações ? Quem mais conhecedor das subtilezas do nosso bello idioma que esse glorioso arauto de tanto espirito brilhante, de tantos homens eminentes, sempre repeitadores da prata de sua cabeça, da felicidade do seu lar, da sua vida operosa, dos seus esforços ingentes no ensino da mocidade do Brasil? Ninguém mais do que elle. Em cada dia da sua labuta educativa em beneficio dos estudiosos, mais um fio branco como linho, nos seus nevados cabellos, mais um sulco na sua face austera, mais uma benção do ceo sobre o seu casal, todo amor, todo carinho, todo venturas sem par. Immortal nos "Serões Grammaticaes", bem como na celebre discussão do "Codigo Civil"; sublime nas suas conferencias, qual a ultima "Educação e Moral", electrisante, commovedora, eloquente, profunda e classica, em todas as suas obras, a rigidez de uma fibra tensa para o ensino, para a convicção por meio dos bons exemplos e dos melhores principios de sã philosophia. Sem offensas a outrem, sem receio dos milindres alheios, para o mestre excelso da nossa lingua, quer como o mais perfeito e mais completo investigadordos seus veios de ouro; quer como o maior dirigente de milheiros de estudantes, os meus emboras mais effusivos, os meus applausos mais sinceros. Ao tempo em que, de mim, de todos os seus dilectos alumnos, seus amigos, um voto fervoroso pela conservação da sua vida, tão necessária à familia, quão util e proveitosa à comunhão social. No seu passado, um labaro (le esperanças na victoria da instrucção. Nas suas obras, um pendão em frente ao povo, como um incentivo na peleja pela conquista de uma carta de abc. Num pedestal de ouro, tão luzente quão valioso, em relação aos sessenta annos de vida trabalhosa, a figura patriarchal e solemne desse idolo da mocidaee, desse homem não commum, o Dr Ernesto Carneiro Ribeiro. E muito abaixo da peanha, na planicie das coisas vulgares, e, por isso mesmo, pequeninas, a plebe dos manuseadores dos bons livros. Mais abaixo ainda, na confusão do pó dos poucos conhecimentos, milhares de neophitos como eu. E para mim, seu nome refulgente, seu alto valimento, com fêcho desta minha variedade literária.

Hosannas, mestre !

Hosannas, grande educador !


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Retirado de Discurso Sem Verbos

Tuesday, October 14, 2003

O Começo do Interlúdio

.:A Preparação:.
Demorou, mas enfim aqui estou, com o segundo post do Vida Grega.

O tempo em silêncio deve-se a razões diversas. Primeiro, porque não tenho o computador à mão para escrever na hora que eu bem entender. Segudo, porque os computadores existentes por aqui não possuem (logicamente) suporte para o português. O resultado é que não posso nem: 1) acentuar as palavras; nem 2) ver páginas ou documentos corretamente - porque em vez de letras acentuadas, tudo o que se vê são caracteres gregos.

Mas vamos começar do começo. Voltemos ao dia 06 de Outubro de 2003. Eu tinha uma passagem de ida para a Grécia marcada para o dia 08 à zero hora e meia (00:30). Seria uma quarta, o que significa que eu teria que sair de casa na terça, por volta das 10 da noite, para poder chegar no aeroporto em tempo de pegar o avião. O problema é que quando você pretende ir ao exterior com algum intento que não seja o de turismo (trabalho, estudo, etc.), há que se conseguir um visto, e esse visto se consegue no consulado do país que se deseja ir. No meu caso, o da Grécia, que fica no Rio.

Pois bem, a coisa funciona da seguinte forma: como você tem que viajar e residir legalmente em outro país, existe a velha burocracia. O consulado manda informações suas ao país em que você deseja se estabelecer e espera a resposta do governo desse país, dizendo se você tem autorização para residir lá. Em outras palavras, é o famoso visto, ou, em inglês, visa. Era a única coisa que faltava.

A questão era que já era dia 06, e eu iria viajar dia 07 (na verdade, dia 08, mas eu sairia de casa no dia 07, já que o vôo era meia-noite). Depois de falar com o cônsul da Grécia pelo telefone, descobri que meu visto ainda estava no Rio e que a autorização da Grécia não chegara. E, claro, não podia perder a passagem (é, a companhia, por incrível que pareça, não aceitava mudança de data nem reembolsava o money. Como havia sido comprada através de algum tipo de promoção, não aceitavam mudanças. Em outras palavras, eu iria perder quase 3.000 reais). O resultado é que o cônsul propôs que eu fosse ao Rio no mesmo dia e pegasse o passaporte com o visto que ele daria (isso ilegalmente, porque autorizaria minha entrada sem receber confirmação do governo grego, o que, devido às circunstâncias, era a única saída). E é isso mesmo. Às vésperas da viagem, tive que comprar uma passagem pro Rio. Mais dinheiro, infelizmente, já que a passagem (ida e volta) custou quase 800 mangos. [suspiro]

Mas bem... fui ao Rio dia 06 e, claro, não pude pegar o passaporte no mesmo dia, porque os consulados só estão abertos de 10am às 3pm. E tinha conseguido um vôo que chegava às 6 da tarde. Fiquei lá até o outro dia, fui no Consulado, peguei o passaporte e fui pro aeroporto, pra voltar pra Salvador. Cheguei em SSA, ainda tive que arrumar as malas (já que não tinha contado com um dia a menos para colocar as coisas em ordem) e fui pro aeroporto de novo, dessa vez para ir à Grécia.

Chegando lá, estavam presentes, além da família (tio, tia, pai, mãe, irmã, papagaio, cachorro, etc.), Metal, Hyor e Júnior (guitarra, ex-Pandora, ex-Dark Riders), esperando por mim que, pra variar, chegava meio atrasado - mas também, tinha sido um dia meio cansativo, há que se admitir. Ficamos jogando papo fora até a hora que fui chamado pra embarcar. Aí então o usual: o choro, a euforia na hora de perder o filho pro mundo, aquela coisa toda.

.:A Viagem:.
A viagem durou oito horas até Lisboa. Do meu lado, havia se sentado uma brasileira que estava indo estudar moda na Suíça. Jogando conversa fora, descobri que os 23 graus outonais de Athenas se transformavam em cruéis 5 graus suíços, e também que a frieza do povo neutro contrastava drasticamente com a agitação e a vivacidade dos helênicos.

As oito horas, felizmente, não se demoraram tanto a passar, já que foi um vôo que aconteceu de noite. Todo mundo dormiu e ficou por isso mesmo. Chegando em Lisboa, tive que achar alguma coisa pra prender o cabelo, e vivi mais descobertas:
1) "Xuxa" (aquela, de cabelo) em Portugal se chama "elástico";
2) "Bico de pato" é "mola" (?!)
3) "Piranha" (aquele negócio pra prender cabelo também) pode ser "piranha" ou... "frufru".


Duas horas depois, estava num vôo para Roma, deixando o sotaque lisboeta para trás. Desembarcando na cidade do antigo maior império do planeta, dei-me conta de que era a minha segunda vez naquele país. E, pela segunda vez, me impressionei com a beleza do lugar. Vou dizer, que paisinho bonito! Muito verde, as estradas muito bem conservadas, o povo muito simpático, o ar muito limpo, e a temperatura... ah, que tempo bom! Gostoso de ficar na cama, debaixo das cobertas vendo filme naquele friozinho bom. Frio que não é frio, e sim aqueles 20 graus que te fazem sentir confortável e que não te deixam ficar suando o dia inteiro.

Seguindo as instruções expressas de Hyor, decidi aproveitar o momento e viver a noitada de Roma. Depois de ligar pros contatos na cidade, o resultado foi uma farra passada entre 5 clubes diferentes (todos com direito a entrada de graça), mais de 120 quilômetros por hora em duas Ferraris diferentes, visitas noturnas ao Coliseu e a outros pontos turísticos da cidade (que é impressionantemente linda!) e uma noite não-dormida. De manhãzinha, me sentindo quebrado, me despedia do povo no aeroporto Leonardo DaVinci, com trajeto Roma-Athenas.

Já no aeroporto, esperando para embarcar no avião, podia-se ver pessoas de todas as partes do mundo. Andando um pouquinho, ouvia-se inglês; mais um pouquinho, espanhol; mais um poquinho, italiano; mais um pouquinho, sueco; e assim por diante. O engraçado é que era fácil distinguir os gregos do resto do planeta. São, em geral, pessoas realmente vivazes e quentes - traço que perdura desde a remota antigüidade helênica, há cerca de 3.000 anos. No avião, sentei ao lado de um grego completamente insano (coisa que, na verdade, não é bem a exceção por aqui, mas mais a regra...), e viemos conversando até Athenas. Era um sujeito debochado, que toda vez que via uma aeromoça italiana passar pelo corredor do avião dizia, com uma expressão facial singular, alguma coisa que, em português, seria mais ou menos "essas italianas... essas italianas... que gatas!". Além disso, se dizia muito fã de aviões e que gostaria muito de ser piloto. Isso era fácil de ver, uma vez que passou quase o vôo inteiro agarrando o assento dianteiro com as mãos e balançando o bicho de um lado para o outro como se fosse um manche de avião. O passageiro da frente (que também era grego), eventualmente, levantou-se e xingou uns trinta minutos, até que os ânimos se apaziguaram. O interessante é que o Giannis (esse grego que sentara ao meu lado) volta e meia chamava as aeromoças e falava com elas (em grego, porque não sabia italiano nem inglês) como se fosse a coisa mais normal do mundo. Frustrado, quando recebia um olhar do tipo "?!", devidamente seguido por um "scuza?!", se volvia a mim e dava ordens estritas de traduzir tudo o que falasse, pois suas dúvidas eram de importância mor.

Cerca de 1 hora e meia depois, regadas a muita risada, chegamos a Athenas, onde já havia uma comitiva esperando por mim no aeroporto. Depois de muito grito, muitos abraços e da euforia por rever velhas amizades, deixei as malas na casa do Thymios (meu maior amigo aqui na Grécia, e onde fiquei nas outras duas vezes que vim a Athenas) e saímos pra farra novamente (já que não dava mais tempo de ir à faculdade e dar conta da burocracia).

.:O Começo da Nova Vida:.
Sobre os gregos, há que se ter consciência de certas coisas: é importante que se tenha em mente que adoram sair, gritar, ser espaçosos, agitar... e realmente amam manter o astral altíssimo. Coisa rara é ver tristeza por aqui. São pessoas alegres e chegadas a uma boa gargalhada. Têm muito bom humor e mesmo que tenham acabado de te conhecer, podem fazer perguntas muito pessoais, do tipo "quanto você pesa?" ou "quantos anos você tem?" para as mulheres... e para os homens, "você está com uma aparência estranha. Há quantos meses você não dorme com alguém?". Geralmente é mais por piada, e sempre perguntam mais por curiosidade que por outro motivo. Isso quer dizer que não importa muito a resposta que você dê, eles não te olham diferente nem te consideram estranho. O pecado pra eles é não ter as dúvidas sanadas - por isso, gostam de perguntar, e também que façam perguntas a eles.

É interessante notar como palavras que continham significados tão profundos na filosofia grega antiga são usadas hoje em dia para coisas triviais... me faz pensar como as coisas podem mudar tanto, ainda que achemos que certas coisas durarão pra sempre. Às vezes as coisas continuam existindo... mas passam a portar um significado totalmente diferente daquele de outrora. E assim se vêem as coisas de forma completamente alheia. A luz é sempiterna, mas o prisma pelo qual se a vê é temporário, creio.

Certas coisas, entretanto, continuam tão atuais como o eram em épocas anteriores a Cristo aqui nas terras gregas. Desde a antigüidade o povo helênico tem se mostrado essencialmente musical, seja em sua própria língua, seja em seus trabalhos, como a poesia ou o teatro... ou como a própria música, que sempre tiveram em alta conta. Isso pode-se ver em áreas distintas do conhecimento humano... como por exemplo, os modos da música, chamados, não arbitrariamente, de modos gregos (que possuem nomes de regiões ou povos gregos, como dórico, lídio, frígio, jônico, eólico, etc.).

A música, pois, continua bastante presente na vida do grego. Ouvem muita coisa, e o mercado aqui é vasto. Gostam muito de música grega, mas também ouvem muita coisa "internacional", inclusive música brasileira. Conhecem Tom Jobim, Caetano e Toquinho, e até cantam músicas em português, mesmo. Chegam a manter sessões fixas de karaokê na casa de alguém, rodeados de muita bebida e comida (outra coisa que é inerente ao povo aqui: adoram comer!, e pode-se ver gente andando na rua, comendo sanduíches ou um dos pratos tradicionais gregos, chamado bougatsa [pronunciado bugátsa]). Ontem mesmo (11 de Outubro) fui a uma dessas sessões de karaokê e me diverti a valer. O pessoal canta junto, dança, pula e se diverte. O difícil por aqui é ir dormir cedo, porque sempre há alguma coisa pra se fazer. Meia-noite é quando as coisas ainda estão começando, e as opções são bastante variadas. Há espaço para todos os gostos e as pessoas se entendem bem. Aliás, coisa impressionante por aqui é que não há racismo. Ou discriminação de qualquer tipo, a propósito. Os gregos não têm um movimento separatista, não têm facções terroristas, e a maioria acha os negros interessantes (fisicamente, os gregos em geral têm pele branquinha e o cabelo preto e liso).

A Grécia é um país muito bonito, com uma língua complexa e específica, um povo cativante e com uma capital (Athenas) que não dorme, cheia de opções para quem gosta de sair e curtir a vida.

Mas é isso. Estou meio cansado de escrever, já. Semana que vem minhas aulinhas na faculdade começam... vamos ver no que vai dar. :-)

"Certamente dão nomes muito estranhos a doenças."
- Platão